Em seu primeiro solo, Júlia Bernat investiga ancestralidade e ativismo LGBTQIAPN em espetáculo que mescla autoficção e pesquisa histórica
Após 18 anos de carreira consolidada nos palcos nacionais e internacionais, a atriz, diretora e dramaturga Júlia Bernat estreia seu primeiro trabalho solo. "Minha Vó Ri" chega ao Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil nesta quinta-feira (8). A montagem traz a direção de Débora Lamm, atriz e fundadora da Cia OmondÉ, que acumula mais de 40 espetáculos no currículo e completa 29 anos de carreira em 2026.
O espetáculo nasce de três anos de pesquisa e utiliza recursos da autoficção combinados ao formato de palestra-performance para entrelaçar memórias pessoais da artista com um mergulho histórico sobre o ativismo lésbico no Brasil e no mundo. O trabalho aborda a busca por aceitação, visibilidade e pertencimento da comunidade LGBTQIAPN , construindo pontes entre trajetórias individuais e coletivas.
Júlia Bernat dialoga com fatos marcantes da história, resgatando personalidades centrais como a cineasta Chantal Akerman e a ativista brasileira Rosely Roth — uma das realizadoras do Levante do Ferro's Bar, que marca a criação do Dia do Orgulho Lésbico, e primeira lésbica assumida a aparecer na TV brasileira nos anos 1980. A peça também recupera momentos históricos significativos, como a liberdade LGBT que marcou a República de Weimar, período anterior ao nazismo, na Alemanha.
Sobre a motivação para criar o espetáculo, a atriz explica: "É uma proposta de dar densidade histórica e filosófica a uma trajetória que muitas vezes é invisibilizada. Eu precisava entender de onde vim para saber onde posso chegar. O palco, então, se tornou o lugar onde a minha busca particular ecoa e encontra sentido na experiência coletiva."
Reforçando a dimensão da ancestralidade, a montagem tem a participação, em vídeo, de sua mãe e tia, e das cantoras Soraya Ravenle e Ithamara Koorax, interpretando uma canção em iídiche.
Júlia traz em sua trajetória o apreço pela pesquisa acadêmica, aprofundado no mestrado em Artes Cênicas pela UniRio, aliado a uma experiência prática reconhecida por premiações e indicações. Entre elas, destaca-se a indicação ao Prêmio Shell na categoria Melhor Atriz, o Prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Rio e o Prêmio CBTIJ de Melhor Texto Adaptado. A atriz também é considerada aquela que mais representa a linguagem da consagrada diretora Christiane Jatahy, vencedora do Leão de Ouro em Veneza.
Ao longo de 14 anos, Júlia integrou espetáculos da companhia de Jatahy — incluindo o mais recente "Um Julgamento - Depois do Inimigo do Povo", com Wagner Moura, também apresentado no CCBB — e participou de alguns dos principais festivais de teatro do mundo, como Avignon, Edimburgo, Lisboa, Los Angeles e Nova York. No currículo, trabalhos como "Julia", "E se eles fossem para Moscou?", "A Floresta que Anda", "Ithaque" e "Entre Chien et Loup" compõem um percurso artístico de consistência internacional.
Além da atuação, Júlia assinou a direção de "Instabilidade Perpétua" e "Saco de Batata", codirigiu "Shuffle" e criou a dramaturgia do infantil "A História de Kafka e a Boneca Viajante", vencedor do prêmio CBTIJ. No cinema, atuou em "Aquarius", "Aspirantes" e "Campo Grande", e codirige o projeto urbano "Lambe Lambe - Histórias Sapatão".
SERVIÇO
MINHA VÓ RI
Teatro III do CCBB Rio (Rua Primeiro de Março, 66 0- Centro)
De 8/1 a 9/2, quinta, sexta e segunda(19h) | domingos (18h)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)