Por: Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

A modernidade que habita na dramaturgia de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues desvela em seu texto uma incongruência absoluta, jorrando na cena traumas familiares, articulando no contraste o patético da hipocrisia humana | Foto: Arquivo

O autor instaura situações inusitadas e constrangedoras, revelando ainda um humor patético, que começou a ser valorizado nas montagens teatrais

O cenário teatral carioca em 2025 foi coroado por uma dramaturgia pungente e, partindo dessa premissa, para iniciar os trabalhos de 2026, reverencio o maior dramaturgo do país: Nelson Rodrigues. O autor nordestino atravessou caminhos tortuosos, numa vida recheada de contradições e tragédias. Todos aqueles desatinos patológicos que encontramos nas personagens, verticalizando profundidade, habitaram na casa-grande de Pernambuco, em que outrora nosso mestre da escrita viveu. Das sinhazinhas e senhores escravocratas, os quais marcaram sua infância, acabou por introduzir no seu teatro: amores impossíveis, incesto, dores, desequilíbrios... em lares suburbanos.

Criado pelo o que chamamos de santa família brasileira, carregada de moral, de bons costumes e protocolos de religião, Nelson desvela em seu texto uma incongruência absoluta, jorrando na cena traumas familiares, articulando no contraste o patético da hipocrisia humana. Mesmo diante de uma assinatura vigorosa e tomada de cenas grotescas, de frustrações irrestritas, o autor não se serve de palavrões, de obscenidades nos seus registros. "O dramaturgo encontra-se na galeria dos Sófocles, Shakespeare, Strindberg, Pirandello, dos O'Neill, nos quais nosso gênio brasileiro se influenciou notoriamente", argumentou o crítico teatral Sábato Magaldi.

Considerado o mais importante dramaturgo do século XX, é respeitado pela crítica e pelo público através da pluralidade de sua obra, atravessado pela multiplicidade de suas ideias, além de pensamentos anárquicos. A relevância do teatrólogo é comprovada e baseada numa carreira exponencial, que contém 17 textos para teatro, 9 romances, 13 livros de crônicas, 5 livros com uma infinidade de contos, em que vários deles receberam adaptações de sucesso para o cinema e televisão. Eu mesmo me debrucei sobre a temática rodriguiana, dirigindo "Perdoa-me Por Me Traíres", no teatro Laura Alvim, em 2012, além de "A Vida Como Ela É", no teatro Municipal Serrador, em 2016.

No último dia 28 de dezembro comemorou-se 72 anos de "Vestido de Noiva", obra-prima do autor, que permanece sendo recriado em nossos palcos. A montagem do grupo Os Comediantes, no Theatro Municipal, com direção de Zbigniew Ziembinski, torna-se um marco histórico: a modernidade do teatro brasileiro. Há um movimento renovatório estético e profissional do fazer teatral. Com a chegada de diretores estrangeiros novas técnicas de encenação foram implementadas, valorizando inúmeros elementos cênicos como cenário, figurino, iluminação, e uma nova forma de olhar o texto revelou-se a totalidade do espetáculo. Tradições foram quebradas, onde práticas teatrais ultrapassadas adquiriram um tom revolucionário, imbuídos por uma nova identidade nas artes, a julgar pelos ideais da Semana de Arte Moderna de 1922.

A segunda peça do teatrólogo, "Vestido de Noiva", desestrutura padrões, em linguagem inédita, esfacelando a linearidade textual, agregando um viés psicológico pujante pouco visto na nossa escrita cênica. O autor investiga o inconsciente da protagonista Alaíde, estabelecendo 3 planos no palco: Realidade, Memória e Alucinação - focando no caos, entre medos, delírios e loucura. Aborda desejo, subjetividade feminina, tritura a consciência, numa revolta contra a "pobreza" da existência, chafurdando em fantasias mórbidas, algo pouco comum no teatro da época.

Outra característica de sua modernidade é a complexidade dos papéis, sobretudo os femininos, afastando-se dos estereótipos do melodrama. Com tintas fortes, a inevitabilidade define a obra como tragédia vanguardista.

Nelson Rodrigues é um microscopista da alma humana, presenteando-nos com uma psicologia abismal o interior de Alaíde, repleta de nuances, registrando seus sofrimentos e sua mutilação, numa extrema originalidade.

O escritor instaura situações inusitadas e constrangedoras, revelando ainda um humor patético, que começou a ser valorizado na dramaturgia. Vale ressaltar que Ziembinski, ao lado do arquiteto modernista e cenógrafo Santa Rosa inovaram na cenografia, além do diretor adicionar um desenho de luz expressionista para demarcar os planos narrativos, fomentando atmosferas de tensão, transformando a figura do diretor em co-autor do espetáculo. "Vestido de Noiva" é um divisor de águas, em que o teatro pós-dramático continua inebriando-se.