Espetáculo de Francis Mayer sobre o escritor Jean Genet retorna ao Rio após turnê nacional e se firma como cartografia dos 'malditos' da literatura
Depois de circular por seis cidades brasileiras e completar um ano desde a estreia, o espetáculo "Marginal Genet" retorna ao Teatro Candido Mendes para nova temporada carioca. O diretor Francis Mayer dá continuidade ao seu projeto de levar ao palco figuras controversas da cultura mundial. Após o polêmico "Pasolini no Deserto da Alma", Mayer agora se debruça sobre a vida do escritor francês Jean Genet, criando uma dramaturgia livremente inspirada nas obras "Diário de um Ladrão", do próprio Genet, e "Saint Genet", de Jean-Paul Sartre.
O texto explora o universo de um dos autores mais transgressores do século 20, cuja trajetória oscilou entre a marginalidade radical e o reconhecimento literário. Nascido em Paris em 1910 e abandonado pela mãe, Genet cresceu em orfanatos e famílias adotivas, sentindo-se desde cedo deslocado e rebelde. Sua adolescência foi marcada por prisões sucessivas por roubo, uma vida errante pelas ruas de Paris como mendigo e ladrão.
Essa experiência de marginalização tornou-se matéria-prima essencial para sua literatura. Em 1943, publicou seu primeiro romance, "Notre-Dame des Fleurs", que chamou atenção pelo estilo poético e pelas temáticas controversas, associando-se ao movimento surrealista e conquistando a admiração de intelectuais como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Jean Cocteau. Foi justamente a intervenção deste último que salvou Genet de uma prisão perpétua que poderia levá-lo à morte.
No espetáculo, o público acompanha o relacionamento de Genet com quatro personagens extraídos de "Diário de um Ladrão": René, garoto de programa; Bernardini, comissário de polícia secreta; Lucien, morador de rua; e Charlotte Renaux, cantora. Thiago Brugger interpreta o protagonista, enquanto Fernando Braga, Vinícius Moizés, Yago Monteiro e Samuel Godois dão vida aos demais personagens. Com linguagem poética e visceral, a montagem propõe uma imersão no universo íntimo do escritor, revelando seus encontros e amores com seres que viviam à margem da sociedade, elevados por ele à categoria de heróis.
A obra de Genet é marcada por uma imaginação febril e alegórica, que valoriza o prazer, a beleza e o humano. Em peças e romances como "As Criadas", "Querelle", "O Balcão", "Alta Vigilância" e "Os Negros", o autor recriou a mesma marginalidade que caracterizou sua existência. Seu estilo lírico e provocativo mistura beleza e decadência, abordando identidade, homossexualidade e liberdade, desafiando normas sociais e provocando reflexões profundas sobre a própria existência. Considerado um escritor de combate, Genet tornou-se figura seminal na literatura francesa, cuja influência se estende ao teatro e aos movimentos contraculturais.
A conexão de Genet e sua obra com o Brasil tem início se deu em 1970, quando a atriz e produtora Ruth Escobar o convidou para a temporada de "O Balcão" no teatro que levava seu nome, em São Paulo. O escritor desembarcou no país em 26 de maio daquele ano, deixando sua marca na cena cultural brasileira.
Francis Mayer não é estreante no universo genetiano. Em 1989, produziu "Querelle" no Teatro Dulcina, lançando Gerson Brenner como ator e contando com Rogéria no elenco, além de música-tema composta especialmente por Cazuza. Em 1997, dirigiu "Alta Vigilância" no Teatro Candido Mendes, com Carlos Machado, Jonathan Nogueira e Luka Ribeiro. O diretor acumula em seu currículo montagens como "Detentos", "Angela Maria - Lady Crooner", "Cazuza - Jogado à Teus Pés", "Os Meninos da Rua Paulo", "As Meninas", "Betty Blue" e "O Hóspede", baseado no filme "Teorema" de Pasolini.
"Marginal Genet" coloca o espectador diante do submundo dos marginalizados, que revela momentos mais intensos de um personagem transgressor movido a lirismo e poesia.
SERVIÇO
MARGINAL GENET
Teatro Candido Mendes (Rua Joana Angélica, 63 - Ipanema)
3 e 4/2, às 20h | De 10/1 a 7/2, sábados (22h)
Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)