Por: Affonso Nunes

Uma declaraçãode amor ao ofício de atuar

Othon Bastos revisita sua carreira, uma das mais sólidas de nossas artes cênicas, em 'Não Me Entrego, Não!" | Foto: Adriano Escanhuela/Divulgação

Aos 92 anos, Othon Bastos retorna ao Teatro Vannucci com o monólogo 'Não me entrego, não!, um dos espetáculos mais celebrados de 2024 e 2025

Gigante das artes cênicas brasileiras, Othon Bastos retorna ao Teatro Vannucci com seu primeiro monólogo. O multimpremiado "Não me entrego, não!" inicia 2026 com nova temporada na cidade, consolidando-se como um dos principais fenômenos teatrais de 202e 2025. A trajetória do espetáculo impressiona pelos números: mais de 200 apresentações realizadas, 90 mil espectadores e uma coleção de prêmios para esta reflexão potente do artista sobre arte, resistência e memória.

A relevância de Othon Bastos para as artes cênicas brasileiras dispensa maiores comentários. No entanto, a disposição do ator de 92 anos de idade e 74 anos de carreira de colocar-se no centro da cena é uma verdadeira declaração de amor ao ofício de atuar. Considerado o maior ator brasileiro vivo, Othon construiu uma filmografia e uma trajetória teatral que se confundem com a própria história cultural do país. De "Deus e o Diabo na Terra do Sol", marco do Cinema Novo de Glauber Rocha, a "Um grito parado no ar", de Gianfrancesco Guarnieri, o ator atravessou gerações e movimentos estéticos sem jamais perder a potência interpretativa que o distingue. Agora, aos 92 anos, demonstra uma vitalidade cênica invejável

O espetáculo que estreou em junho de 2024 percorreu o Brasil. Passou por São Paulo, Brasília, Recife, Fortaleza, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Vitória, além de cidades do interior como Franca, Bauru, Angra dos Reis e Taubaté. Um dos momentos mais emocionantes da turnê aconteceu quando a montagem levou Othon de volta a Tucano, na Bahia, sua cidade natal, onde não pisava havia mais de 80 anos.

A consagração crítica veio na forma de uma sequência impressionante de láureas. O Prêmio Shell reconheceu Othon como Melhor Ator de 2024, distinção que se repetiu no 19º Prêmio APTR de Teatro, onde levou o troféu de Melhor Ator Protagonista. Flávio Marinho, autor e diretor do espetáculo, foi premiado como Melhor Autor tanto no APTR quanto no Prêmio FITA, a Festa Internacional de Teatro de Angra. A produção da Gávea Filmes recebeu o reconhecimento de Melhor Produção de Teatro Não-Musical. Somam-se ainda o Prêmio Inspira Rio 2025 na categoria Cultura, o Prêmio Arcanjo 2025 como Vencedor Especial, e o prêmio Cariocas do Ano 2024 da revista Veja Rio na categoria Teatro.

O texto de Marinho nasceu de um material bruto entregue pelo próprio Othon: um calhamaço de escritos confiados ao amigo de décadas. A partir dessa matéria-prima autobiográfica, o dramaturgo organizou a vida do ator em blocos temáticos - trabalho, amor, teatro, cinema, política. "É com o maior orgulho e alegria que eu vejo o sucesso nacional da peça. Mais de um ano e meio em cartaz contando a história de vida de um ator que se confunde com a história do Brasil. Ver Othon fazendo o povo rir - e rindo de si mesmo - é um privilégio único", observa o diretor. A estrutura permite que momentos marcantes da trajetória do ator sejam revisitados sem cair na armadilha da nostalgia vazia. As reflexões são pontuadas por citações e referências literárias que ampliam o alcance das memórias pessoais.

Para Othon, a experiência de fazer seu primeiro monólogo aos 92 anos representa um desafio inédito. "É um momento único, mesmo: meu primeiro monólogo e sobre a minha própria vida. É uma experiência muito forte eu ter que ser o meu próprio centro em cena", declara o ator. A escolha de privilegiar as lembranças alegres e divertidas, deixando de lado as amargas, revela uma concepção dramatúrgica que aposta na generosidade como princípio. "Mas não trazemos nenhuma lembrança amarga, apenas as alegres e divertidas, para levar curiosidades que vivi ao longo desses anos todos ao público, que saberá o que se passa com um ator - que é uma pessoa comum. Mas, quando se recebe um dom como esse, você tem a capacidade de doar o que recebeu. Então é isso que eu quero, me doar - e que as pessoas me leiam. Quero que elas vejam quem eu sou e como sou", completa.

A disposição física e o entusiasmo de Othon em cena impressionam quem assiste ao espetáculo. Trabalhando sem parar, é ele o primeiro a questionar quando o intervalo entre as apresentações fica mais espaçado. Para o ator, estar em cena funciona como uma injeção de ânimo que estimula a vitalidade. Essa energia contagiante explica, em parte, o sucesso de público que transformou "Não me entrego, não!" em fenômeno. A peça consegue equilibrar o peso de uma carreira histórica com a leveza de quem ainda tem muito a dizer e a fazer.

Flávio Marinho resume a proposta do espetáculo ao explicar que, além do esqueleto dramático formado pelas histórias pessoais e profissionais de Othon, há um segundo nível de elaboração. "À primeira vista, o que temos é o próprio Othon Bastos em cena contando histórias divertidas e dramáticas da sua vida pessoal e profissional. Isto seria, digamos, o esqueleto dramático da peça. Só que este esqueleto é recheado de diversas reflexões, frutos imediatos do tema abordado por Othon. Por exemplo, depois que ele encontra o amor da vida, com quem está casado há 60 anos, o texto passa a refletir o sentimento do amor através de diversas referências e citações", explica o diretor. Essa camada reflexiva transforma o que poderia ser um simples relato memorialístico em uma meditação sobre os temas fundamentais da existência.

A peça propõe uma reflexão sobre resiliência e superação de obstáculos, temas que ganham força quando encarnados por alguém que atravessou quase um século de vida e mais de sete décadas de profissão. O mural de uma vida apresentado no palco funciona também como lição sobre como enfrentar as adversidades que se apresentam ao longo da existência. Nesse sentido, "Não me entrego, não!" transcende o biográfico para se tornar um manifesto sobre a potência da arte como forma de resistência e afirmação da vida.

SERVIÇO

NÃO ME ENTREGO, NÃO!

Teatro Vannucci (Rua Marquês de São Vicente, 52 / 3º andar - Shopping da Gávea) | De 2/1 a 1/2, sextas e sábados (18h) e domingos (16h) | Ingressos: Plateia - R$ 150 e R$ 75 (meia) e balcão - R$ 50 e R$ 25 (meia)