Por: Affonso Nunes

Musical aborda vida e obra de Gilberto Gil

Gilberto Gil no show 'Viva São João 2' (2000) | Foto: Priscila Casaes Franco/Acervo Gilberto Gil

Espetáculo "Gil – Andar com Fé" revisita trajetória do artista baiano em superprodução dirigida por Miguel Falabella

A partir de 22 de agosto de 2026, o Teatro Santander, em São Paulo, receberá a primeira biografia musical dedicada integralmente à vida e obra de Gilberto Gil. Intitulado "Gil - Andar com Fé", o espetáculo chega aos palcos brasileiros como uma superprodução que promete revisitar a trajetória de um dos nomes mais importantes da música e da cultura do país, reunindo canções icônicas, episódios marcantes e passagens que atravessam suas diversas fases como criador, intérprete e pensador da música brasileira.

A direção é de Miguel Falabella, com texto de Newton Moreno, cuja obra se destaca pela brasilidade e forte presença poética em títulos premiados como "Agreste", "As Centenárias", "Memoria da Cana" e "Cangaceiras". Na equipe de direção, Bárbara Guerra atua como diretora associada, trazendo experiência como produtora executiva, coreógrafa e diretora em grandes produções. A cenografia será assinada por Natália Lana, vencedora do Prêmio Bibi Ferreira de melhor cenografia pelo musical "Elvis - A Musical Revolution". A realização é da Barbaro! Produções e Aurora Produções, com coprodução da Atual Produções, empresas responsáveis por espetáculos como "Tom Jobim Musical", "Dreamgirls - Em Busca de um Sonho", "Chorus Line" e "Donna Summer Musical", entre outros. A produção ainda não tem elenco definido - as audições serão realizadas entre os dias 9 a 13 de março de 2026. Mas os ingressos já começam a ser vendidos a partir do dia 21 de janeiro na plataforma Sympla.

Em vez de seguir uma linha cronológica convencional, "Gil - Andar com Fé" acompanha a trajetória de Gilberto Gil a partir do período do exílio em Londres, momento decisivo em sua vida e obra. A partir desse ponto, o espetáculo conduz o público por lembranças que resgatam sua formação no sertão de Ituaçu, a efervescência de Salvador, os palcos do Rio e de São Paulo e episódios marcantes como o histórico show de despedida Barra 69, que antecedeu sua partida forçada do país.

Nesse percurso, surge Tempo-Rei, personagem maduro e de caráter quase mítico, que atua como guia e consciência, aproximando diferentes fases da vida do artista e estabelecendo diálogos entre o Gil jovem e o Gil do futuro. A história inclui figuras essenciais do universo de Gil, como Caetano Veloso, Flora Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Gonzaga, Sandra Gadelha, e artistas e familiares que ajudaram a moldar sua trajetória pessoal e musical, entre eles Jorge Mautner, Jards Macalé, Roberto Carlos, Nana Caymmi, além de filhos, netos e a neta Flor, que simbolizam a continuidade de seu legado.

Canções como "Eu Vim da Bahia", "Andar com Fé", "Aquele Abraço", "Domingo no Parque", "London, London", "Tempo-Rei", "Se Eu Quiser Falar com Deus", "Drão", "Vamos Fugir", "Back in Bahia", "Palco", "Realce" e "Toda Menina Baiana", entre muitas outras, fazem parte da trilha sonora do musical, surgindo como elemento dramatúrgico fundamental, transformando lembranças em cena e recriando momentos de saudade, exílio, resistência, descoberta e celebração.

A vida que será celebrada no palco é a de um artista cuja trajetória atravessa mais de seis décadas. Gilberto Gil nasceu em Salvador e foi criado em Ituaçu, no interior da Bahia. Sua carreira começou no acordeão, ainda nos anos 50, inspirado por Luiz Gonzaga, pelo som do rádio, pelas procissões na porta de casa. No interior do Nordeste, a sonoridade que explorava era a do sertão, até que surge João Gilberto, a bossa nova, e Dorival Caymmi, com suas canções praieiras e o mundo litorâneo, tão diferente do mundo do sertão.

Influenciado, Gil deixa de lado o acordeão e empunha o violão, e em seguida a guitarra elétrica, que abrigam as harmonias particulares da sua obra até hoje. Suas canções desde cedo retratavam seu país, e sua musicalidade tomou formas rítmicas e melódicas muito pessoais. Seu primeiro LP, "Louvação", lançado em 1967, concentrava sua forma particular de musicar elementos regionais, como nas conhecidas canções "Procissão", "Roda" e "Viramundo".

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Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano Veloso: os Doces Bárbaros | Foto: Walter Firmo

Em 1963, ao conhecer Caetano Veloso na Universidade da Bahia, Gil inicia com o amigo uma parceria e um movimento que contempla e internacionaliza a música, o cinema, as artes plásticas, o teatro e toda a arte brasileira. A chamada Tropicália, ou Movimento Tropicalista, envolve artistas talentosos e plurais como Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat, José Capinam, Torquato Neto, Rogério Duarte, Nara Leão, entre outros.

Este movimento gera descontentamento da ditadura vigente, que o considera nocivo à sociedade com seus gestos e criações libertárias, e acaba por exilar os parceiros. O exílio em Londres contribui para a influência ainda maior dos Beatles, Jimi Hendrix e todo o mundo pop que despontava na época, na obra de Gil, que grava inclusive um disco em Londres, com canções em português e inglês.

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Gilberto Gil em Londres durante os anos de exílio | Foto: Acervo Gilberto Gil

Ao retornar ao Brasil, Gil dá continuidade a uma rica produção musical, que dura até os dias de hoje. São ao todo quase 70 discos lançados, tendo sido premiado com 9 Grammys. Entre LPs, CDs e DVDs, como "Expresso 2222", "Refazenda", "Viramundo", "Refavela", "Realce", "UmBandaUm", "Dia Dorim", "Raça Humana", "Unplugged MTV", "Quanta", "Eu Tu Eles", "Kaya N`Gandaya", "Banda Dois", "Fé na Festa", "Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo com Orquestra", entre tantos outros, Gil criou uma vasta e abrangente obra musical e audiovisual.

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Gilberto Gil durante o show 'Refestança' | Foto: Mário Luiz Thompson/Acervo Gilberto Gil

Um de seus mais recentes trabalhos, "Gilbertos Samba", é uma reinterpretação de canções gravadas por João Gilberto e uma homenagem do discípulo para o mestre. Em 2015 e 2016 celebrou com Caetano Veloso os 50 anos de carreira em um show histórico, "Dois Amigos, Um Século de Música", registrado em CD e DVD. Em 2017 a Trinca de Ases foi lançada: Gil, Nando Reis e Gal Costa percorreram os palcos das principais cidades do Brasil e da Europa, projeto também registrado em CD e DVD. Em 2018, lançou o álbum "Ok Ok Ok" que traz a família, a doença que experimentou e o questionamento do posicionamento que a sociedade lhe exige. O álbum foi vencedor do Grammy Latino em novembro de 2019 na categoria "Melhor Álbum de Música Brasileira".

Cada novo projeto de Gil tem suas formas consolidadas em diversas turnês pelo mundo. Todo disco vira show e muito show vira disco. Sempre disposto a realizar turnês nacionais e internacionais para cada novo projeto, Gil é presença confirmada anualmente nos maiores festivais e teatros da Europa. Realizou diversas turnês pelas Américas, Ásia, África, e Oceania. Gil tem um público cativo em seus shows no exterior, desde suas primeiras apresentações internacionais em 1971, a partir da sua marcante participação no festival de Montreux, em 1978.

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Gilberto Gil é saudado pelo então secretário-geral da ONU, Kofi Anan, após discursar e cantar no plenário da organização em 2003 | Foto: Reprodução

Em 2002, após sua nomeação como ministro da Cultura, Gil passa a circular também pelo universo sociopolítico, ambiental e cultural internacional. No âmbito do ministério, em particular, desenha e implementa novas políticas que vão desde a criação dos Pontos de Cultura até a presença protagonista do Brasil em Fóruns, Seminários e Conferências mundo afora, trabalhando temas que vão desde novas tecnologias, direito autoral, cultura e desenvolvimento, diversidade cultural e o lugar dos países do sul do planeta no mundo globalizado. Suas múltiplas atividades vêm sendo reconhecidas por várias nações, que já o nomearam, entre outros, de Artista da Paz pela Unesco em 1999, embaixador da FAO, além de condecorações e prêmios diversos, como Légion d' Honneur da França, Sweden's Polar Music Prize, entre outros. O reconhecimento de sua vida e obra mais recente veio através da nomeação de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Berklee e de imortal pela Academia Brasileira de Letras para ocupar a cadeira de número 20. Ambos os títulos recebidos em 2021.

Nos últimos anos, Gilberto Gil realizou turnês de grande sucesso: com "Gilberto Gil & Family" se apresentou com sua família em vários festivais em sete países da Europa e com "Gilberto Gil - Aquele Abraço" percorreu mais nove países na Europa, além da Austrália, Nova Zelândia, Japão, Singapura, Taiwan, China e Coreia do Sul. Em 2025 iniciou a turnê de despedida, "Tempo Rei", apresentando-se em vários estádios e arenas lotados pelo Brasil, incluindo locais como Arena Fonte Nova, Allianz Parque, Arena BRB Mané Garrincha, Ligga Arena e Estádio Mangueirão, com o último show marcado para o Allianz Parque em 28 de março de 2026. A turnê celebra sua longa carreira, emocionando plateias que comemoram o tamanho e a importância de sua obra.

É nesse contexto de despedida dos palcos que "Gil - Andar com Fé" ganha ainda mais relevância, oferecendo ao público uma oportunidade de revisitar, através do teatro, a trajetória de um artista fundamental de nossa identidade cultural.