Por: Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / DE PERTO NINGUÉM É NORMAL: Popular sem ser popularesco

Uma peça onde tudo dá errado desde os bastidores é a tônica desta nova montagem da CiaTeatro Epigenia | Foto: Luciana Salvattori/Divulgação

Artistas brilharam independentemente em 2025 na cena carioca, mas "De Perto Ninguém É Normal" é um espetáculo homogêneo cujas peculiaridades estão, caótica e sofisticadamente, elaboradas. E é com esse cristal transfigurado que a ótima Cia de Teatro Epigenia, completando 25 anos, aposta em comédia e produz uma de suas melhores atrações. Gustavo Paso engendra uma narrativa impecável, baseando-se em "Arsênico e Alfazema", do estadunidense Joseph Kesselring, montagem da notável TBC -Teatro Brasileiro de Comédia, com Cacilda Becker, em 1949.

Com astúcia, o dramaturgo usa e abusa de elementos, pelos quais os profissionais de teatro perpassam indiscriminadamente, investindo numa metalinguagem sarcástica, além de homenagear a sétima arte com citações de "E O Vento Levou", "Um Estranho No Ninho", entre outros. Uma companhia de teatro, desorientada, atabalhoa-se e não realiza o ensaio geral, na noite de estreia: tensões entre atores, diretor, cenários e figurinos atrasados acarretam quiproquós divertidos e inusitados. E quando abre-se o pano tudo vai por água abaixo, num esforço hercúleo do elenco para fazer dar certo, mas que já estava obviamente equivocado, em que o público deleita-se.

A direção, do autor, é meticulosa, a julgar pelo ótimo alinhamento ao amplificar seus intérpretes, adicionando marcas inventivas, além do timing sustentado, em que a encenação transcorre vigorosamente, sem perder fôlego.

Ana Velloso e Andrea Dantas estabelecem uma dobradinha raramente vista. Funcionam como uma única engrenagem, mesmo quando reluzem separadamente: Dantas, ainda como Elza, desenha sua embriaguez com exatidão e Velloso desequilibra-se, numa postura corporal apropriada, em que as atrizes acertam todo o tempo, numa conexão com suas personagens destemperadas adeptas à eutanásia. Luciana Fávero, Gustavo Falcão, Gláucio Gomes, Dodi Cardoso, Gustavo Klein, Tatjana Vereza, Gabriel Natividade e Gustavo Paso, repletos de sabedoria cênica, alavancam poderosamente a montagem, mas vale ressaltar a composição histriônica e jocosa de Anderson Cunha ao viver o policial O'Hara, numa alusão à Jerry Lewis, Renato Aragão, entre outros mestres do humor.

O Cenário de Paso, um dos melhores da temporada, instaura uma ambiência de época com escadaria, portas, vitrô, revelando rusticidade, além de ares gélidos invadidos por janela em perfeita contextualização dramatúrgica. Embora a urdidura desenvolva-se na metade do século passado, Graziela Bastos enroupa as personagens numa inspiração vitoriana e seus estilos diversificados, num destaque para o figurino de Elaine. Recortes na luz de Nicolas Caratori favorecem o clima sombrio do espetáculo. "De Perto Ninguém É Normal" é o melhor do popular nos nossos palcos, sem ser popularesco.

SERVIÇO

DE PERTO NINGUÉM É NORMAL

Caixa Cultural - Teatro Nelson Rodrigues (Av. República do Parguai, 230)

Até 21/12, sxta (19h), sábado e domingo (17h)

Imgressos a partir de R$ 30 e R$ 15 (meia)