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Ruth de Souza e Léa Garcia, duas mulheres movidas pela arte

Bárbara e Ivy têm atuações de profunda humanidade | Foto: Divulgação

Amorte de Ruth de Souza, aos 98 anos, em 2019, deixou uma sensação de dívida pendente no diretor Luiz Antonio Pilar. Quando Léa Garcia partiu aos 90, logo após a pandemia, o sentimento se intensificou. Agora, o cineasta decide quitar essa conta histórica com "Ruth & Léa", espetáculo em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, com Bárbara Reis e Ivy Souza interpretando as duas icônicas atrizes.

A ideia nasceu em 2003, durante uma visita casual à casa de Ruth de Souza. "Era um sábado, ela tinha o hábito de me receber para conversarmos sobre TV e cinema entre um café e biscoitinhos. Para minha surpresa, Léa também estava lá", relembra Pilar. Foi quando Ruth, primeira brasileira indicada a um prêmio internacional de interpretação no Festival de Veneza por "Sinhá Moça" (1953), fez uma observação sobre uma questão que povoava o imaginário popular: "Todo mundo acha que somos inimigas, mas não somos. Ou é a Léa, ou sou eu, ou é a Zezé Motta. Isso dá a impressão de que estamos disputando entre nós, mas são eles que nos colocam nessa posição e nos oferecem pouquíssimas coisas", disse a atriz, confidenciando seu desejo de fazer uma peça com Léa sob a direção de Pilar.

O espetáculo materializa esse encontro nunca realizado. No cenário de Lorena Lima, que evoca um estúdio cinematográfico, duas atrizes chamadas Zezé e Elisa se preparam para interpretar Ruth e Léa em um filme musical sobre suas vidas. Os nomes remetem a Zezé Motta e Elisa Lucinda, continuadoras do legado das pioneiras. Enquanto se preparam para as filmagens, elas refletem sobre as trajetórias dessas mulheres que abriram caminhos no cinema e teatro brasileiros, compartilhando anseios e conquistas sob o acompanhamento musical de Gláucia Negreiros ao piano.

Para Bárbara Reis, que retorna aos palcos após sete anos, a experiência representa um novo olhar artístico. "Tenho adquirido uma perspectiva diferente a partir do olhar cênico dele (Pilar), com liberdade para arriscar e também ser ridícula", explica a atriz, que interpreta Ruth de Souza. O maior desafio tem sido conter sua própria energia para dar vida à personalidade mais contida de Ruth. "É um misto de euforia e realização. A mensagem principal é: nada se constrói sozinho."

Ivy Souza, que interpreta Léa Garcia, conheceu pessoalmente a veterana atriz em 2019, quando Léa assistiu ao espetáculo "Isto É um Negro". "Está sendo muito marcante para mim. Ela sempre foi uma das minhas maiores referências", revela Ivy, refletindo sobre o legado das pioneiras. "Sendo uma atriz negra, tenho consciência de como ela e Ruth puderam mobilizar tantas coisas com as parcas possibilidades que tiveram. E fico pensando: qual futuro é possível plantar agora? Para que um artista negro possa viver a experiência de exercer sua arte como ofício, é preciso suporte e rede."

SERVIÇO

RUTH & LEA

Teatro Glaucio Gil (Praça Cardeal Arcoverde s/nº, Copacabana)

Até 28/7, sábado a segunda (20h)

Ingressos: R$ 60, R$ 30 (meia) e R$ 20 (vale cultura e passaporte cultural)