Música

A cuíca é pop!

Aos 75 anos, Índio da Cuíca lança 'Zing Zing', álbum que aproxima samba e experimentação com oportunas participações de Ana Frango Elétrico, Siba e Juçara Marçal

A cuíca é pop!

Affonso Nunes

Aimagem de Zé Pilintra deslizando em moonwalk enquanto Michael Jackson arrisca um miudinho na Lapa serve sintetiza o universo que o ritmista Índio da Cuíca constrói em "Zing Zing". Aos 75 anos e com mais de cinco décadas de estrada, o músico lança pelo selo carioca QTV seu segundo álbum solo, fazendo da cuíca o ponto de encontro entre ancestralidade, samba e experimentação.

Nascido no Morro do Borel e formado musicalmente no ambiente das escolas de samba cariocas, Índio não se limita ao instumento que leva no nome. Canta, dança e improvisa, mas não larga da cuíca. A combinação o levou a palcos internacionais, em apresentações da Suíça à Tunísia, e a gravações ao lado de nomes como Alcione, Jair Rodrigues e Roberto Carlos.

Índio desenvolveu uma maneira de controlar melodicamente o instrumento, tradicionalmente associado à função rítmica, ampliando suas possibilidades sonoras. Em "Zing Zing", essa experiência é a matéria-prima de um trabalho singular.

O disco chega cinco anos depois de "Malandro 5 Estrelas", estreia solo lançada em 2021. A direção musical, os arranjos e os violões são de Gabriel de Aquino, filho do violonista João de Aquino, e Bernardo Oliveira, que divide a direção artística com Paulinho Bicolor. A produção combina o chamado "samba dub" com bandolim, piano, sintetizadores e percussões de caráter ritual.

O repertório nasceu, em parte, de registros de voz, berimbau e cuíca feitos pelo próprio Índio e posteriormente desenvolvidos com parceiros de diferentes gerações. O pernambucano Siba (Mestre Ambródio) participa de "Cangalha do Boi", samba-embolada de João Martins e Raul DiCaprio. A carioca Ana Frango Elétrico aparece em "Alguém Me Chama", parceria de Índio com Romulo Fróes. E Juçara Marçal interpreta "Gracinha". Manu da Cuíca assina versos de "Sabença e Dendê".

O passado familiar também atravessa o álbum. Índio recupera "Magia Africana no Brasil e Seus Misteriosos", composição de Jorge T. Machado, o Gambazinho, seu irmão.

Toda essa mistura entre memória e invenção atinge a concepção visual do trabalho. A Lapa fornece a paisagem, enquanto referências aos fotógrafos africanos Seydou Keïta e Malick Sidibé orientam a direção de arte de Rafael Meliga, responsável também pelas fotografias, e Lucas Pires, com styling de Natasha Ribas.

Entre o terreiro, o cabaré, a escola de samba e o palco internacional, Índio passou décadas fazendo da cuíca uma extensão do próprio corpo. Em "Zing Zing", faz desse universo um convite a dança. Os DJs vão deitar e rolar nas pistas com a ginga pop de Índio e sua inseparável cuíca.