Correio da Manhã
Música

Fofo, ma non troppo

Em seu 11º álbum de estúdio, Chico César ergue um edifício musical que tem suas origens paraibanas como argamassa

Fofo, ma non troppo
Em 'Fofo', Chico César preenche uma lacuna de sua trajetório como compositor ao resgatar as canções escritas em sua fase paraibana, antes do sucesso conquistado em São Paulo e no Brasil Crédito: José de Holanda/Divulgação

Arquiteto de canções, Chico César retorna às fundações. Após exploraram diferentes paisagens sonoras em seus trabalhos anteriores, o paraibano lança "Fofo", seu décimo primeiro álbum de estúdio, que pode ser definido como um edifício musical erguido sobre a argamassa de suas origens. Pela primeira vez, o artista volta a dar voz a composições ainda da adolescência, escritas entre os 16 e 20 anos, quando morava em João Pessoa.

"Fofo foi gravado em formato voz e violão, o mesmo de "Aos Vivos" (1995), seu álbum de estreia que consolidou sua presença no cenário brasileiro e internacional. Mas há uma diferença crucial na construção: enquanto "Aos Vivos" foi gravado ao vivo em apresentação, "Fofo" foi gravado ao vivo no estúdio, sem coberturas adicionais. Chico não se exime da vulnerabilidade das composições, como se cada nota fosse um tijol? exposto da estrutura erguida.

O trabalho reúne 16 faixas, todas autorais, incluindo três parcerias que funcionam como vigas de sustentação: uma com Pedro Osmar, outra com Paulo Ró (ambos integrantes do Jaguaribe Carne) e uma terceira com a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. É desta última que surge a faixa-título. Chico retirou do romance "Americanah" (2013) um mote que sintetiza a tensão do álbum: "Eu não quero ser fofo, eu quero ser a porra do amor de sua vida". Trocando em míúdos, essa fofura tem a casca fina.

A atmosfera do álbum remonta ao experimentalismo e a uma certa angústia típica da juventude, trazendo aos dias de hoje as inquietações políticas, existenciais e artísticas de Chico no período em que foram compostas. Há faixas que dialogam com o universo erudito, como "Esclaridão", onde o violão de Chico trabalha camadas harmônicas complexas.

A motivação para este retorno veio de uma turnê recente. Chico revela que estava em estrada apresentando seu primeiro álbum quando percebeu que aquele repertório deixava de fora as canções da fase paraibana. O novo disco funciona, portanto, retoma uma história interrompida, aproximando o ouvinte do jovem e inquieto artista que começava a se desenvolver como compositor.

A escolha de gravar num único take e sem camadas de produção reposiciona o trabalho no contexto da carreira do cantor e compositor. Se álbuns como "Vestido de Amor" (2022) e "Ao Arrepio da Lei" (2024) exploraram arranjos mais densos e muitas colaborações, "Fofo" nasce com uma austeridade formal que permite que as composições respirem por si mesmas. É como se o artista tivesse removido o reboco da onra para deixar à vista a estrutura bruta do edifício.

Cronista da vida brasileira em suas canções, Chico César nasceu Francisco César Gonçalves em Catolé do Rocha, no interior da Paraíba. Aos 16 anos, mudou-se para a capital João Pessoa, onde se formou em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba.

Já em São Paulo, Chico foi apresentado ao Brasil em 1995 com o álbum "Aos Vivos", que o projetou nacionalmente. Suas composições carregam crítica social, humor e lirismo. São pop, com as influências do folclore nordestino nunca foram deixadas de lado. Faixas como "Mama África" e "À Primeira Vista" fizeram dele um compositor respeitado, sendo posteriormente gravado por nomes como Maria Bethânia, Geraldo Azevedo, Daniela Mercury, Itamar Assumpção, Lucas Santtana, Ana carolina e Zeca Baleiro.Representante de uma geração de artistas contemporâneos dos anos 1990, Chico César desenvolveu uma linguagem própria que dialoga com a tradição da música popular brasileira, sem se filiar a movimentos específicos. Sua obra encontrou distribuição e reconhecimento significativo fora do Brasil, notadamente nos Estados Unidos e Europa.

Macaque in the trees
Fofo, Chico César | Foto: Divulgação

"Fofo" está disponível no YouTube, com lançamento previsto para as demais plataformas de streaming.