Correio da Manhã
Música

'Cabeça Dinossauro', o álbum que definiu a identidade dos Titãs

Quarenta anos depois, a contundente crítica social do álbum ainda se faz necessária e turnê comemorativa do disco chega ao Rio neste sábado (9)

'Cabeça Dinossauro', o álbum que definiu a identidade dos Titãs
Branco Mello, Tony Bellotto e Sérgio Britto vão executar 'Cabeça Dinossauro' na íntegra e completam o repertório com sucessos que seguem a identidade desse álbum marcante Crédito: Divulgação

Quarenta anos depois, a contundente crítica social do álbum ainda se faz necessária e turnê comemorativa do disco chega ao Rio neste sábado (9)

Eles já foram um octeto e agora se apresentam como trio, mas a energia pulsante de suas apresentações ao vivo segue a mesma. Depois de uma explosiva estreia em em São Paulo e passagem por Belo Horizonte, os Titãs desembarcam no Rio nesta sábado (9) com o show da turnê comemorativa dos 40 anos de "Cabeça Dinossauro", o álbum que demarcaria a identidade estética e musical da banda nos anos seguintes.

Quando os Titãs subiram ao palco do Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 28 de março, para abrir a turnê de 40 anos de Cabeça Dinossauro, a primeira coisa que fizeram foi projetar uma mensagem no telão que exibia o laudo da censura que autorizava a veiculação restrita da faixa "Bichos Escrotos". "Pra quem tem dificuldade em entender o que é Censura!", avisam Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto antes da executar na íntegra um disco que transformou a história do rock nacional.

"Cabeça Dinossauro" nasceu em um momento de transição. O ano era 1986 e o Brasil tentava reaprender o significado de liberdade após duas décadas de ditadura, enquanto enfrentava uma crise econômica profunda e uma democracia ainda frágil. Os Titãs, então, lançaram um álbum que confrontava a hipocrisia com uma crueza até então inédita no rock brasileiro. Faixas como "Polícia", "Igreja", "Bichos Escrotos" e "Estado Violência" não apenas criticavam — acusavam. A produção de Liminha, Vitor Farias e Pena Schmidt reforçava essa agressividade com um som pesado, minimalista e visceral. Não havia baladas, não havia qualquer tipo de concessão ao gosto comercial. Só havia fúria e uma penca de canções que ainda fazem enorme sentido.

Quando o álbum foi gravado, os Titãs eram um octeto: além do trio que segue em atividade, estavam no estúdio Paulo Miklos, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Charles Gavin. Cinco deles eram vocalistas — uma configuração incomum que criava diversidade e, ao mesmo tempo, algum tipo de confusão. Depois de dois discos de rock com pop, reggae e até flertes com o brega — incluindo o sucesso "Sonífera Ilha" (1984) — a banda surpreendeu com uma mudança de postura radical. O álbum foi concebido sem um conceito prévio. "Quando chegava a hora de gravar um disco, cada um começava a mostrar as ideias aos outros", recorda Tony Bellotto. "A gente nunca pensou em fazer um disco do zero, começando por um conceito. No 'Cabeça', a gente logo percebeu que essa atitude agressiva estava aparecendo em várias músicas. Teve um momento que a gente sentiu que o núcleo era esse." Segundo Sérgio Britto, a prisão de Bellotto e Arnaldo Antunes em 1985, detidos com drogas, contribuiu para essa postura mais agressiva. "Não dá para negar que a prisão do Tony e do Arnaldo, do ponto de vista extramusical, marcou a gente. Acho que isso contribuiu para a postura mais agressiva", afirma.

As canções traziam vocais gritados e letras diretas com recados fortes para um país cuja democracia ainda engantinhava. O primeiro single, "AAUU", era uma música sem precedentes — uma escolha que causou espanto até em Renato Russo, da Legião Urbana, que dominava as rádios com a melódica "Tempo Perdido". Quando os dois se encontraram no programa do Chacrinha, Russo perguntou por que haviam escolhido "AAUU" em vez de canções mais acessíveis do álbum. Britto respondeu com a estratégia da banda: "Era para não deixar dúvida que dali para a frente seria diferente. "A capa do álbum não mostrava a banda — apenas um esboço de Leonardo da Vinci. Até o título era desafiador. "Conseguimos convencer a gravadora de que aquilo era algo que faltava no rock nacional", comenta Branco Mello.

"Éramos cinco cantores na banda. Quando você ouve essa massa vocal gritada, você passa a reconhecer os Titãs. No mainstream brasileiro não tinha outra banda assim. A coisa das letras enxutas, quase como um slogan, tudo isso marcou o nosso estilo", explica Britto. Bellotto destaca que a maior qualidade do disco, mais do que a agressividade, é a força estética da música/: "Os arranjos não têm os sons característicos dos anos 1980. É um disco cru, e musicalmente não envelheceu".

Na turnê, o grupo apresenta a íntegra de Cabeça Dinossauro no início do show, com todas as músicas na ordem das faixas do disco. Depois, completa o setlist com canções de outros trabalhos que conversam com o repertório do álbum. Além dos três, sobem ao palco o baterista Mario Fabre e os guitarristas Beto Lee e Alexandre de Orio. "Tem muitas guitarras no 'Cabeça', alguns solos brilhantes do Tony. Achamos que é bom ter mais uma guitarra no palco", conta Britto. Orio substituiu Bellotto em alguns shows enquanto o titular se recuperava de uma cirurgia como parte de tratamento contra câncer.

O que os críticos e o público têm testemunhado é um show que não trata Cabeça Dinossauro como um museu — é uma reafirmação. Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto tocam com a mesma intensidade de quem ainda acredita que aquelas letras importam. "Cabeça Dinossauro marcou a nossa carreira e a história do rock nacional", disse Sérgio Britto em entrevista. "Inventamos ali o nosso vocabulário — riffs fortes, vocais gritados, letras sintéticas e precisas". Tony Bellotto complementa: "É emocionante celebrar um álbum que permanece atual depois de 40 anos". Branco Mello, por sua vez, ressalta que o título nasceu de uma pequena e poderosa frase composta em 1986: "Cabeça de Dinossauro, Pança de Mamute, Espírito de Porco", que se tornaria a espinha dorsal da ruidosa faixa-título.

SERVIÇO

TITÃS — CABEÇA DINOSSAURO 40 ANOS

Qualistage (Av. Ayrton Senna, 3000 — Barra da Tijuca) | 9/5, às 21h | Ingressos a partir de R$ 97,50