Correio da Manhã
Música

Música que nasce do mundo

Bernardo Aguiar lança álbum visual que coloca a percussão como eixo narrativo

Música que nasce do mundo
músico e produtor Bernardo Aguiar apresenta 'Káminhos Benaguiá', seu primeiro álbum solo, conectando as raízes rítmicas do Brasil profundo a uma estética de alcance global Crédito: Daniel Lôbo/Divulgação


O músico e produtor Bernardo Aguiar apresenta, no próximo dia 15 de maio, um marco decisivo em sua trajetória de mais de 30 anos: o lançamento de "Káminhos Benaguiá". Seu primeiro álbum solo, disponibilizado via YouTube, não é apenas um registro fonográfico, mas uma obra audiovisual na qual a percussão assume o papel de eixo narrativo central, conectando as raízes rítmicas do Brasil profundo a uma estética de alcance global.

A bagagem de Aguiar é extensa. O artista completa duas décadas como integrante do Pife Muderno, grupo fundado por Carlos Malta que é referência na música instrumental brasileira. De sua formação nas baterias das escolas de samba cariocas às colaborações com nomes como Guinga, Hamilton de Holanda e Martinho da Vila, Bernardo organiza agora suas múltiplas facetas em uma proposta autoral integrada. "O trabalho é apresentado como uma obra audiovisual — não no sentido ilustrativo, mas estrutural: som e imagem são concebidos juntos, desde a origem, como partes de uma mesma linguagem", define o músico.

Em "Káminhos Benaguiá", a percussão deixa de ser apenas uma base rítmica para conduzir o ritmo das imagens, os cortes e as texturas visuais. Cada faixa, como Terra Mandinga, Caboclo Snarkyado e Anhangá Karioká, funciona como um microcosmo sinestésico. O artista revela que sua inspiração reside em figuras que ele denomina "arquitetos da música", capazes de edificar mundos que extrapolam o som.

"Me inspirei em artistas que constroem 'mundos musicais'. São artistas que têm um senso de que a música não é só a música em si, mas que ela extrapola a ideia do som. São artistas que quando você fecha o olho você vê coisas profundas, porque é essa a proposta", explica Bernardo. Ele cita como referências fundamentais Villa-Lobos, Stravinsky, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e seu mentor na percussão, Naná Vasconcelos. "Tom Jobim, arquiteto de formação, edificava mundos musicais inspirados na natureza brasileira. Björk, por exemplo, diz que, para fazer música, se inspira no clima, na água, no sapato que está usando. Me identifico muito com essa ideia. Música como algo que nasce do mundo, e não só do instrumento", complementa.

O projeto também se destaca pela rede de colaborações que reforça sua vocação para o intercâmbio estético. No campo internacional, o álbum conta com integrantes da premiada banda norte-americana Snarky Puppy: o baixista Michael League e o saxofonista Chris Bullock. A presença desses músicos amplia o diálogo da obra com a cena instrumental contemporânea global. Entre os brasileiros, o time é composto por nomes de diferentes gerações e estilos, como Carlos Malta, Antonio Neves, Silvério Pontes, Guto Wirtti, Aline Paes, Fernanda Santanna e Gabriel Guinther.

"O projeto foi ganhando corpo também a partir das colaborações musicais. Chamei amigos e amigas que admiro muito, e isso foi fundamental para expandir o som do álbum", conta Bernardo. O processo de criação, iniciado durante a pandemia, carrega uma dimensão artesanal: o artista assumiu praticamente todas as etapas, desde a composição e arranjos até a filmagem, mixagem e edição visual.

A obra propõe uma experiência de escuta imersiva, próxima da cinematográfica, em resposta ao consumo fragmentado e rápido da atualidade. Sons da natureza, captados em viagens à Amazônia, são incorporados como matéria-prima e ganham desdobramentos visuais diretos. O resultado é uma estética híbrida, onde as fronteiras entre o orgânico e o eletrônico, o musical e o visual, tornam-se fluidas.