X-Táticos, derivado porra-loca dos mutantes do Professor Xavier, é uma iguaria quadrinística que desce rascante na garganta de muito nerd, mas oxigena a cachola que Heitor Pitombo põe a serviço de duas artes pop: as HQs - das quais é tradutor e pesquisador - e da canção. Nessa área, é um multi-homem, como muitos heróis do mundo Marvel, feito a turma X de seu amado Mike Allred, roteirista e desenhista de que é fã. Roqueiro de fino domínio sobre os acordes de "Dark Side of The Moon", esse jornalista de apuração precisa canta, compõe e grava. Tem um CD saindo do forno: "O Tempo Não É Nada". Suas faixas recheiam o show que Pitombo fará no Teatro Brigitte Blair, nesta quinta-feira, às 20h.
Desde que começou a compor letras mais maduras, ali pelo começo dos anos 1980, esse Clark Kent carioca acumulou centenas de músicas na gaveta. Reuniu 13 das suas melhoras - e mais uma, de autoria do amigo igualmente multi Arnaldo Bloch, também repórter, escritor, pianista e afins - em seu primeiro disco solo, o tal "O Tempo Não é Nada". Além de estar disponível em todas as plataformas, a bolacha também possui uma versão física e reúne expressões poéticas do rock ao jazz, da mineiridade (e outras vertentes da MPB) ao rock progressivo. Tem até uma canção praieira que evoca, ao mesmo tempo, lisergia e Dorival Caymmi.
Astro da revista "Mundo dos Super-Heróis", Pitombo lançou, faz pouco, o livraço "Quadrinhos do Brasil", lançado pela Editora Heroica. No papo a seguir, ele vai além dos balõezinhos num solfejo existencialista sobre processo de criação.
De que maneira o teu repertório atual demarca maturidade na tua relação com a música? O que mudou mais na tua relação com o som, o rock, o canto?
Heitor Pitombo - As músicas que gravei no meu disco, e que canto e toco nos meus shows, refletem a minha história. Faço trabalhos no segmento desde 1983. Em 40 anos de estrada, nunca havia gravado um CD com as minhas composições antes. "O Tempo Não é Nada" traz músicas que foram gestadas desde os anos 1980 até o final dos 2010. Selecionar as 14 faixas que entraram denotam não só a minha maturidade para escolher as que seriam mais procedentes para a minha estreia solo, como também atestam longevidade. E hoje em dia canto e toco melhor, mais pela vivência do que por qualquer outra coisa. Até as releituras de canções de outros artistas, que canto no meu show, espelham essa trajetória de vida.
E como a música e as HQs se combinam aí na cachola da tua cabeça?
As duas coisas habitam o universo do prazer e do trabalho. Digamos que o meu trampo de criador está mais associado às notas musicais enquanto que, em se tratando de arte sequencial, eu me considero um operário. Bem que eu gostaria de ser mais conhecido pela música que faço do que pelo trabalho que já realizei nos quadrinhos. De qualquer maneira, são dois ofícios que requerem muita dedicação para que se possa pagar as contas.
O cineasta Wim Wenders costumava dizer "O rock' n' roll salvou a minha vida". E a tua? Que operação de ordem redentora o rock fez?
A redenção, para mim, veio assim que o rock deixou de ser a linguagem mais crucial no meu som. Claro que a música pop que curti na minha juventude, em todas as suas vertentes, foi fundamental para a minha formação. As canções no meu disco espelham bastante essa influência. "Infinitas Viagens" e "Seus Lábios me Dizem" tem um pé no progressivo, ao passo que "Tudo é Sedução" tem aquele groove do funk do bem. Toquei em muita banda de rock ao longo das últimas quatro décadas, mas a música só começou a fazer sentido para mim, como algo maior, quando me deparei com a riqueza da MPB, da nossa música instrumental, do jazz, e do universo erudito. Beatles e Tom Jobim são incomparáveis, mas são igualmente importantes para a solidificação da minha filosofia musical.
Você é um dos mais respeitados tradutores de HQ no país. O que mais te surpreende no mercado de quadrinhos hoje? O que você leu de melhor nos últimos anos?
O que continua me surpreendendo no mercado de quadrinhos nos últimos anos é a possibilidade de se ter cada vez mais obras de qualidade chegando continuamente às prateleiras das livrarias e das lojas virtuais. Na época em que eu estava crescendo, as HQs eram compradas majoritariamente nas bancas de jornais. O que se vê nos locais onde esses pontos de venda, cada vez mais escassos, ainda existem é um estreitamento dos gêneros à disposição, basicamente super-heróis, de mangás e da Turma da Mônica. Mas, felizmente, pode-se adquirir facilmente pela internet material de categoria a rodo. Citaria como exemplo toda a obra do Fabien Toulmé, por exemplo. Os dois últimos quadrinhos que li são duas preciosidades sem tamanho: "Duas Moças Nuas", de Luz, e "Sibylline: Crônicas de Uma Acompanhante", de Sixtine Dano.
Que novos projetos musicais e literários você tem hoje?
Meu principal projeto do momento é a divulgação do meu disco, em shows como o que vai acontecer nesta quinta-feira, e de todas as outras formas que forem possíveis. Quero muito rodar o Brasil com esse trabalho, vamos ver o que acontece... No que diz respeito à literatura, estou com algumas coisas em mente, mas só vou anunciar quando estiverem minimamente amadurecidas.
SERVIÇO
HEITOR PITOMBO
Teatro Brigitte Blair (Rua Miguel Lemos 51-H, Copacabana)
14/5, às 20h
Ingressos a R$ 120 e R$ 60 (meia)