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Vulnerabilidade e reconciliação

Uma mulher que perde progressivamente a memória e uma filha que carrega anos de silêncios e ausências se encontram na sala de espera de um consultório médico. É neste espaço — aparentemente banal — que a peça inédita "Caminho de Casa" constrói seu drama, alternando entre o presente e fragmentos do passado para revelar as fraturas de uma relação que nunca foi completamente elaborada. Com texto de Renata Mizrahi e direção de Miwa Yanagizawa, o espetáculo em cartaz na Arena do Sesc Copacabana, traz as atrizes Kelzy Ecard e Juliana França em papéis que exigem vulnerabilidade e precisão.

Marta, interpretada por Kelzy Ecard, é uma mulher que sofre com a perda progressiva de memória e o medo de não conseguir o perdão da filha. Laura, vivida por Juliana França, revisita as dores que levaram sua mãe a desaparecer em um determinado momento de suas vidas. No presente, elas conversam como duas desconhecidas — um encontro que funciona como espelho para toda a história que as une e as afasta simultaneamente.

A estrutura dramatúrgica quebra a cronologia linear para refletir a memória fragmentada de Marta. O público transita entre momentos de lucidez e devaneios, conhecendo diferentes épocas dessa relação: desde a infância de Laura até os dias atuais. Nos anos 1980, Marta emerge como uma mulher apaixonada pelo mar, que trabalhou duro para comprar um apartamento em Copacabana enquanto equilibrava casamento, maternidade e trabalho — uma realidade que toca muitas mulheres que enfrentam a sobrecarga de funções e seus efeitos no esgotamento mental.

Mizrahi inspirou-se em relações reais para criar as personagens, incluindo sua própria história com a mãe. "Eu sou a filha mais velha de três. Minha mãe era muito sobrecarregada e tinha uma relação conturbada com meu pai. Eu não tive intimidade com ela durante a adolescência, uma fase muito importante", revela a autora. Ela reconectou-se à mãe aos 18 anos, e hoje descrevem uma relação que, embora sem intimidade profunda, é marcada por respeito e carinho — um tipo de reconciliação que a peça explora com profundidade.

A direção de Miwa Yanagizawa trabalha com o que ela chama de "espelho delicado" que expõe a vulnerabilidade humana diante da vida. "Tem sido uma aventura acompanhar a relação entre Marta e Laura, da Kelzy e da Juliana, que fazem, brilhantemente, mãe e filha em cena", comenta Yanagizawa. "Elas vivem uma relação atravessada por ausências, silêncios, traumas que nunca foram muito elaborados, palavras que não foram ditas no momento certo, gestos que faltaram. E tem o fator trágico de a mãe estar perdendo a memória. Vemos as personagens recriando um vínculo afetivo à medida que as recordações vão se desfazendo. A gente ri e chora quase ao mesmo tempo."

Kelzy Ecard sobe ao palco para celebrar 35 anos de carreira no teatro. Reconhecida como uma das mais potentes atrizes de sua geração, ela acumula indicações aos prêmios Mambembe, Shell e Aplauso, além de vencer os prêmios APTR, Botequim Cultural, Cenym e Questão de Crítica. Juliana França, atriz, diretora e dramaturga cria de Japeri, mestre em Filosofia pela UFRRJ, foi indicada ao 36º Prêmio Shell de Teatro (2025/2026) na categoria direção. Com mais de 20 montagens teatrais e atuação contínua em cinema e televisão, ela circulou por mais de 18 países com o espetáculo "Depois do Silêncio" entre 2022 e 2024.

A peça investiga o estar em família quando a memória falha, quando palavras importantes nunca foram ditas e quando o tempo oferece uma última chance de reconexão.

SERVIÇO

CAMINHO DE CASA

Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)

Até 26/4, quinta a sábado (20h) e domingo (18h)

Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia), R$ 10 (associado Sesc) e gratuito (PCG)