Cinema

José Eduardo Belmonte se põe de joelhos à excelência

José Eduardo Belmonte se põe de joelhos à excelência
Christian Malheiros na travessia do tapete vermelho de Gramado antes de exibir' Justino' Crédito: Edson Vara/Ag. Pressphoto

Caixinha de surpresa, o prolífico cinema de José Eduardo Belmonte ("Alemão") já rendeu ao cinema algumas joias ("Gorila", "Se Nada Mais Der Certo") em sua imparável produtividade, ao devassar códigos morais de uma sociedade craque em ser hipócrita. Só não se esperava que ele devassasse o neopentecostalismo brasileiro - indo aos intestinos do sistema digestivo das crenças evangélicas - com a contundência que faz em "Justino - Nos Bastidores do Reino.

É uma adaptação dos relatos literários do ex-pastor e escritor são-gonçalense Mário Justino, que é interpretado por Christian Malheiros. Mais frenético do que em seu discurso fílmico habitual, Belmonte usa um nome fictício para falar da Igreja Universal e transforma um Caio Blat na raia do assombro num alter ego de Edir Macedo. Ao cair nas lábias de pegadores, num momento de selvagem segregação entre os racistas de sua escola e de cansaço em relação à brutalidade de seu pai (Antonio Pitanga), Justino encontra abrigo na Palavra de Nosso Senhor.

Seu erro foi se deixar encantar por uma pregação capitalista da Bíblia. Numa montagem pautada pela visceralidade, feita por André Finotti e o próprio realizado, o longa encontra na figura da estrela de stand-up trans (mas chamada no roteiro de travesti) Danuza, personagem de Onna Silva, seu grande eixo de empatia. É uma presença que iluminou Gramado.