Responsável por inaugurar o Panteão de produções ganhadoras do Kikito de Melhor Filme, no ano um do Festival de Gramado, lá em 1973, "Toda Nudez Será Castigada" vendeu 1.737.151 ingressos, consagrando-se como blockbuster. Foi premiado ainda na Berlinale, o que torna difícil para historiadores/as precisarem o quão influente o evento (desde então) anual da Serra Gaúcha teve na carreira comercial do longa-metragem de Arnaldo Jabor (1940-2022). Contudo, ao se falar de sua consagração popular, a imagem do Kikito, deus da alegria dos Pampas, pede os holofotes que merece.
Gramado contribuiu para fazer daquele clássico uma grife. Sempre faz essa diferença. Por isso, neste momento em que a competição por essa estatueta (a mais famosa do audiovisual neste país) está a um passo de terminar, com o anuncio da premiação agendado para a noite deste sábado, a discussão em torno dos vencedores envolve uma reflexão sobre qual dos concorrentes têm fôlego para cruzar a marca do milhão, como o cult de Jabor cruzou.
A situação de nossas bilheterias está tão feia este ano que, se algum competidor - na ficção ou no documentário - vender mais de 100 mil tíquetes, já será uma festa.
Com a ajuda do portal Filme B, entidade responsável por monitorar as receitas de longas no Brasil, o Correio da Manhã levantou o faturamento dos dez longas brasileiros mais vistos desde janeiro. O quadro está na página ao lado. Nossa estreia de maior arrecadação no ano foi "Velhos Bandidos", de Claudio Torres, que estacionou a carreira nas salas exibidoras depois de vender 429.187 bilhetes. Ano passado, de janeiro a março, "Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa" deu o dobro disso (e mais um tiquinho), em dois meses em cartaz, somando cerca de um milhão. Também ao longo de dois meses de 2025 (novembro e dezembro), "O Agente Secreto", que nos deu o Globo de Ouro e recebeu quatro indicações ao Oscar, vendeu 1,1 milhões de entradas. Totalizou cerca de 2,5 milhões de espectadores.
Em 2006, quando a nossa ocupação de tela mal chegou a 10% no primeiro semestre, o segundo lugar do pódio, "O Diário de Pilar na Amazônia", parou em 147.803 espectadores. Apesar de essas cifras darem tristeza, Gramado permanece otimista frente ao fato de que a reverberação elogiosa em torno de muitas de suas atrações possa se converter em interesse das plateias. "Chorão: Só Os Loucos Sabem", que só será lançado em 2027, besuntou José Loreto de adjetivos entusiasmados em sua entrada na competição oficial. O apelo de reviver o líder do Charlie Brown Jr. - e com uma atuação visceral - pode contagiar tietes da banda. Numa outra latitude, no perímetro infantojuvenil, "Feito Pipa", do Ceará, angariou um fã-clube ardoroso à força de seu astro de dentes de leite, Yuri Gomes, e da presença de Lázaro Ramos.
Até na esfera documental, Gramado pode elevar a crença de nosso público nas autoralidades que vai revelar, a julgar pelo apelo (pelo menos junto ao povo de seu estado) de "Grenal: o Maior Clássico das Américas". Exibido hors-concours, o filme revisita mais de um século de confrontos entre dois clubes, o Grêmio e o Internacional, numa narrativa dirigida por Belisario Franca e Tatiana Sager, com direção adicional de Renato Dornelles e roteiro de Leo Garcia.
"O público continua consumindo histórias brasileiras, mas a disputa pelo tempo e pela atenção do espectador se tornou mais acirrada do que nunca" explica Rosa Helena Volk, presidente da Gramadotur, autarquia municipal de cultura que realiza a caça aos Kikitos. "O papel histórico do Festival de Gramado é justamente o de agir como um acelerador de visibilidade — uma vitrine capaz de retirar o filme do ruído diário, construir prestígio e reascender o desejo de ir ao cinema".
A visão de Rosa Helena se concretiza na escalação de um thriller com fôlego de superprodução, "Antártida", para a abertura dos trabalhos em Gramado, no último dia 14. Sua estreia será no dia 17 de setembro. O investimento que os Estúdios Globo fizeram nesse suspense glacial - de pompa inegável e elenco estelar - pode transformá-lo num ímã para cinéfilos. A idealização foi da roteirista Claudia Jouvin e a direção ficou a cargo de Bruno Safadi (de "Meu Nome É Dindi"), que assina os créditos de muitos êxitos de audiência do Plim-Plim, de novelas das seis a séries. Esse suspense foi filmado em um espaço estimado em 1.500 m², localizado no Rio de Janeiro, que conta com câmeras autotracking de alta precisão, recursos de Inteligência Artificial e Realidade Aumentada e cerca de 300 m² de telas de LED, o que permitiu imersão na paisagem congelante - mesmo no calor carioca. A produção possibilitou a união do mundo real e do virtual de forma fluida, utilizando, além da tecnologia, imagens captadas na Patagônia através de câmeras 360 e cenários físicos. Em "Antártida", o prestígio de Andrea Beltrão se fortalece ao assumir um signo de empoderamento: a subcomandante Elisabeth.
Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos - inclusive as patentes mais altas, Comandante Barros (Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). Elisabeth (Andrea) assume ali a difícil missão de investigar o ocorrido, enquanto as demais mulheres da estação - Inês, Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena) - se sentem acuadas e precisam se unir para enfrentar o medo, o silêncio e a violência.
"Gramado segue firme na convicção de que o cinema brasileiro tem vigor, potência e relevância", explica Rosa Helena. "Ao oferecer uma vitrine de prestígio, estender o tapete vermelho para os criadores e criar um ambiente de negócios no Gramado Film Market, o festival renova seu compromisso histórico de ser a ponte que reconecta nossas produções com o público das salas de cinema".
Desde a pandemia, Gramado teve - mais do que qualquer outro festival desta pátria - um peso essencial para que certos rincões antes pouco conhecidos de nossa indústria cinematográfica tivessem destaque. O caso mais notável é o do Acre, que venceu o festival de 2022 com "Noites Alienígenas". Depois, em 2024, foi a vez de Goiás, com "Oeste Outra Vez". Ano passado, coube essa alegria para o Mato Grosso, via Cuiabá, com "Cinco Tipos de Medo". Nenhum dos três fez uma jornada de blockbuster... nenhum colocou milhões nos cinemas. Mas puderam exportar seu esplendor estético por múltiplas veredas graças aos Kikitos conquistados.
Nos papos de bastidor deste festival, muito se comentou acerca dos longas (ainda no forno, 100% inéditos) que podem lucrar de setembro até o réveillon. A atração mais esperada, prevista para 3 de setembro, é "Minha Melhor Amiga". Nele, Julia (Mônica Martelli) e Clara (Ingrid Guimarães) são melhores amigas e vivem o auge dos seus 50 anos. Quando suas filhas, Manu e Isadora, viajam para um intercâmbio em Portugal, elas aproveitam para dar um tempo da rotina frustrante e decidem embarcar para a Europa. Mas, ao chegarem em terras lusitanas, nem tudo sai como planejado e o que seriam apenas umas férias divertidas com as garotas se transforma em uma viagem que vai ressignificar a vida das duas.
Para 8 de outubro, "Se Eu Fosse Você 3", de Anita Barbosa, conta com Gloria Pires e Tony Ramos. Os astros dos filmes anteriores da franquia podem repetir a dose de 2006 e de 2009, e oferecer às redes exibidores sessões abarrotadas. Uma semana antes, teremos o cocoricó de "Galinha Pintadinha: O Filme", de Juliano Prado e Marcos Luporini, com animação para levar crianças de todo país às poltronas de nossas redes exibidoras.
Dependendo de qual for a decisão de juradas e jurado neste sábado, em Gramado, um novo potencial xodó de brasileiras e brasileiros pode se firmar... e sob a bênção solar do Kikito.
Menu