Pensou Gramado, pensou na força do cinema gaúcho, que, nos anos 1980, exportou uma série de talentos para as telas dos demais estados, como Ana Luiza Azevedo, Giba Assis Brasil, Carlos Gerbase e Jorge Furtado, que volta às salas de projeção, na próxima quinta-feira, com "Muito Prazer". Outro divo do estado, Otto Guerra, mais importante animador desta pátria, corre o mundo com "O Filho da Puta", longa que projetou no prestigiado Festival de Annecy, há cerca de dois meses.
A fim de celebrar uma excelência que criou um legado regional invejado até no eixo mais hegemônico, RJ x SP, à força de cults como "Ilha das Flores" (1989), o audiovisual do Rio Grande do Sul tem premiações paralelas em seu festival mais consagrado. No domingo passado, Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa venceram a competição Curtas Gaúchos com "Grão". É a saga da solidão de um catador de soja extraviada.
Nesta sexta, véspera de as atividades gramadenses chegarem ao fim, será anunciada a premiação da disputa de Longas Gaúchos, tendo como favorito o .doc "Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido", de Luciane Fagundes. Haverá ainda a entrega de honrarias que celebram a prata da casa, como o Prêmio Iecine Inovação. Essa láurea vai coroar o que, há cerca de uma década, é o veio mais reluzente de invenção na filmografia sulista com CEP no RS: a dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.
A consagração deles coincide com a chegada do longa mais recente desse duo, "Ato Noturno", ao streaming, na Apple TV. A produção estreou na Berlinale, que vem acolhendo tudo deles, desde "Beira Mar" (2015), vencedor da mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Reolon e Matzenbacher foram coroados ainda na Première Brasil de 2018 por "Tinta Bruta", que deu a eles o Teddy no Festival de Berlim. Porto Alegre é mais do que cenário nos filmes de tônus queer que eles fazem. É uma espécie de organismo dramático, capaz de acolher, seduzir e ameaçar seus personagens. Em "Ato Noturno", thriller afetivo de pulsão erótica, a cidade é filtrada pelo imaginário noir. O resultado é uma história sobre desejo, fama, risco e repressão, acompanhando um jovem ator e um político que mantêm uma relação secreta e descobrem compartilhar o fetiche por sexo em espaços públicos.
"A gente tenta pensar esse espaço do Rio Grande do Sul, da cultura gaúcha, através da nossa perspectiva, do momento em que a gente foi criado, de onde a gente vem socialmente e dos conflitos que percebemos ao nosso redor", explica Matzembacher. "Somos cinéfilos, cada um com sua predileção" explica o diretor, citando (num tom tiete, de fã) um policial brasileiro de Miguel Faria Jr., "República dos Assassinos" (1979). "A personagem vivida pelo Anselmo Vasconcellos (Eloína) é a maior femme fatale do cinema brasileiro".
Reolon complementa que mostrar o Estado também significa assumir a diversidade como matéria cinematográfica. "Para a gente sempre foi muito importante mostrar as paisagens do nosso Estado e o sotaque", afirma. "Eu e o Filipe trabalhamos juntos há muitos anos, então criamos uma dinâmica de muita colaboração. A gente não divide tarefas, fazemos tudo juntos". Os próximos projetos incluem um western a ser filmado no interior do Rio Grande do Sul e um terror dramático.
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