Escalada para representar o Brasil na briga pelo prêmio Horizontes Latinos de San Sebastián, na Espanha, em setembro, como protagonista de "A Professora de Francês", a mineira Grace Passô é mais forte concorrente ao Kikito de Melhor Direção num Festival de Gramado que acolhe sua estreia no posto de cineasta. "Nosso Segredo" - com lançamento marcado para o próximo dia 27 - é uma nova conquista num percurso artístico de força imparável, que começou a alcançar notoriedade estrangeira com "Temporada", em 2018.
Ali, o mérito era todo de suas múltiplas destrezas para interpretar. Agora, o que está em jogo é sua investigação dos caminhos da realização. A curiosidade da atriz e dramaturga nesse campo cativou a Berlinale, na Alemanha, que a convocou para a mostra competitiva Perspectivas.
Na Europa se depositaram aplausos, elogios, consagração em variadas línguas e a certeza de que "Nosso Segredo" é aquele tipo de "filme de estreante" que nasce inesquecível. Depois, em abril, foi a vez do BAFICI - Festival Internacional de Buenos Aires, de onde saiu igualmente contemplada por resenhas cheias de entusiasmo. Agora, contudo, o jogo agora é em casa, já que Gramado, embora tenha todo o espírito da Serra Gaúcha, vira um microcosmos de Brasil em seus dias de corrida pelos Kikitos.
"Tenho uma espécie de pacto comigo mesma: fui passando por várias funções — comecei como atriz, depois fui estudar, dirigir, escrever — sempre guiada por uma intuição, por imagens e formas que surgem na minha cabeça", explicou Grace ao Correio da Manhã, no Bafici, ao fim de sessões lotadas de "Nosso Segredo". "Como este é o meu primeiro longa, esses limites ainda não são muito nítidos pra mim. É tudo muito misturado. Mas percebo que há um trânsito, no filme, entre um pseudorrealismo e um modo de incorporar o surreal. Isso, sem dúvida, vem da minha vivência no teatro. Para mim, o teatro não é uma arte realista. Ele opera com outros códigos, com outro tipo de verossimilhança".
Antes de "Nosso Segredo" pousar no Rio Grande do Sul, o miocárdio de Gramado estava pleno nas mãos de "Feito Pipa", do cearense Allan Deberton, com um carinho inefável pela atuação de José Loreto em "Chorão: Só Os Loucos Sabem". Parece que as especulações mudaram. O barato agora é Grace. Sua estética conversa com chagas ancestrais.
Uma das intérpretes de maior prestígio do teatro e do cinema brasileiro no século XXI, famosa pela trajetória nacional da peça "Vaga Carne", Grace se consolida num novo front de criação, ao realizar. Não há boca em solo gramadense que não se encante com o filme de trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) esculpido entre luto, lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal) a partir de reescrita de "Amores Surdos", texto teatral de autoria da própria Grace. A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura a "Nosso Segredo" um aspecto crepuscular. Seu enredo mistura finitude, recomeço e perenidade. Nele, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do que é crível.
"As grandes tragédias que atravessaram as comunidades negras foram enfrentadas muito por meio do afeto, do amor — sem romantizar — e também por organização e espiritualidade. Existe uma força coletiva muito grande aí. As famílias negras sobreviveram à miséria e à violência se unindo nos momentos difíceis. Isso me marcou muito desde a infância. Essa ideia de esperança vem desse lugar: de como conseguimos sobreviver juntos a uma história tão dura. Tem uma imagem que eu adoro: na casa da minha infância, onde 'Nosso Segredo' foi filmado, havia um portão muito emperrado. Ninguém consertava, mas, ao mesmo tempo, era preciso juntar todo mundo da família pra conseguir abrir. Isso virou uma metáfora muito forte pra mim. Essa união diante do problema, essa necessidade de estar junto, é algo que está muito presente no meu filme", explicou Grace.
Na competição de documentários, as realizadoras Susanna Lira e Sabrina Fidalgo (em dupla com Yvan Rodic) apresentaram os longas mais inflamáveis de Gramado este ano, na forma de abordar as inadimplências do estado diante dos direitos individuais do povo: "O Projeto" e "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade". Cada um a seu modo - um falando contra o racismo e o outro, a falar de censura, nas artes -, esses longas incendiaram o Palácio dos Festivais, dando um status de autoralidade a suas criadoras. Isso não significa que - tal qual se passa agora com "Nosso Segredo" -, o placar documental não possa ser mudado, em função do fluxo em forma de transe de "Empeleitada" (PE). Esse experimento metafísico de Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges segue a construção coletiva de uma casa de taipa uma forma de dar corpo à memória do povo indígena Xukuru. Uma morada nascida da terra, da luta e dos encantados, o curta transforma o gesto de construir em ato de permanência, pertencimento e transmissão de memória.
Vejamos que escolhas o júri há de fazer.
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