Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Não é exagero... nem jargão... dizer: "Mamdou Dia botou Locarno para bailar". Com sua forma audaz de abordar as leis da Física que só a dança sabe regular, o longa-metragem mais recente do cineasta senegalês antes só conhecido por "Demba" (2024) - o ensaio documental "Atcha Atcha" - é a experiência mais sinestésica do festival suíço, em sua seleção de 2026, até agora. A produção desloca a câmera para os corpos de jovens bailarinos em formação sob a orientação de Germaine Acogny, referência da dança contemporânea no Senegal. Durante 83 minutos, o cineasta torna movimentos, gestos, hesitações e corpos em arquivos vivos de uma experiência coletiva, investigando como uma geração recebe, muda e transmite conhecimentos a outras. Num telefonema com o Correio da Manhã, Mamadou dissecou seu experimento audiovisual.
O aspecto mais impressionante de "Atcha Atcha" é a maneira como você transforma o movimento dos corpos em algo que ultrapassa o registro de uma coreografia. Parece mais um ensaio de Física sobre o movimento, mas atrelado a uma poesia da fisicalidade. É mais do que um documentário sobre dança. O que o movimento corporal representa para você?
Mamadou Dia: Sou um cineasta que nasceu e cresceu no Senegal e, como você sabe, nós, do chamado Sul Global, muitas vezes temos nossos corpos representados de maneira muito exótica. Ou se mostra o músculo, ou os traços da beleza, e isso aparece o tempo todo. Eu não sou bailarino, não sei dançar e também não sabia o que a dança significava. Ao fazer este filme, aprendi que a dança pode ser tudo. Você pode simplesmente entrar em cena, ler uma poesia e, ainda assim, haverá dança. A ideia é expressar uma ideia através do corpo.
Como foi, na prática, nas locações, a sua aproximação física e cinematográfica da dança?
Eu sempre tive interesse nessa figura materna que é Germaine Acogny, considerada uma das mães da dança contemporânea africana. Ela fundou uma escola com o marido, e eu sempre quis fazer alguma coisa sobre ela, mas, desde o começo, sabia que não queria simplesmente fazer um filme biográfico. Nos meus filmes, estou sempre interessado na transmissão: em como nossas comunidades são afetadas pelo que é passado de geração em geração. Meu cinema fala sobre como as comunidades mudam a partir do que se transmite de uma geração para outra.
Como você dirigiu os bailarinos que estão no centro do filme?
Passei muito tempo com eles. Conheci-os aos poucos e procurei entender quem eram antes mesmo de começar a filmar. Algumas das práticas que aparecem no filme eu já tinha visto a olho nu, antes de levar a câmera. Às vezes, simplesmente acompanhava aquilo que eles faziam. Tudo está em movimento naquela escola. Mesmo quando eles não estão fisicamente dançando, estão pensando na dança, porque vivem juntos naquele pequeno vilarejo chamado Toubab Dialaw. Então a questão era: como filmar? Eu mesmo fiz a fotografia e queria manter a câmera a uma certa distância. Perguntava a mim mesmo: se eu estivesse apenas assistindo àquela dança, sem uma câmera, onde eu ficaria? A partir daí, procurava uma posição que desse ao bailarino o máximo de espaço, mas também permitisse ao espectador experimentar a intensidade daqueles corpos se movendo dentro do quadro.
Em "Atcha Atcha", dança, cinema, vídeo e outras formas de criação parecem conversar para investigar uma questão muito preciosa: identidade. O que significa ser senegalês, ou ser africano, quando esses jovens estão criando através de diferentes linguagens?
Acho que o filme trata de identidade justamente ao dar às pessoas que aparecem nele as suas próprias identidades. São bailarinos e coreógrafos africanos fazendo seu mestrado em dança no Senegal. Nós os vemos duvidando, criando. Cada um fala sobre o país que deixou para vir estudar ali. A identidade também é a identidade desses jovens, com suas esperanças e seus sonhos. São pessoas otimistas, acreditando que vão conseguir.
O que o rótulo "cinema africanos" representa para você?
Eu prefiro falar "cinemas africanos". Eu não me vejo como um representante oficial do Senegal quando faço um filme. Ninguém no Senegal me disse: "Mamadou, vá fazer filmes". Eu peguei uma câmera e fui fazer. Não estou representando um país. Estou representando o ponto de vista que tenho e aquilo que me interessa. Quero mostrar pessoas comuns que estão fazendo coisas extraordinárias. O Senegal é um país rico em experiência cinematográfica, em história e em memória do cinema. Tivemos a sorte de ter pessoas como Ousmane Sembène e tivemos grandes filmes que foram feitos, embora algumas coisas sejam esquecidas ou escolhidas para não serem lembradas. Os africanos francófonos foram proibidos de fazer filmes. Houve um decreto votado na França, que determinava que os povos colonizados não poderiam fazer cinema sem autorização. Foi preciso encontrar uma brecha. Os primeiros filmes conhecidos feitos por africanos negros foram realizados na França justamente porque jovens cineastas encontraram uma zona cinzenta na legislação. Até hoje temos esse conhecimento, e sou muito grato às pessoas que trabalharam antes de mim e àquelas que continuam fazendo cinema.
No Brasil, quando se fala de um cinema feito por vozes autorais pretas, o debate do racismo se faz sempre presente. O que significa racismo para um cineasta senegalês?
No Senegal, não falamos necessariamente apenas de um debate racial, mas a questão continua existindo porque raça ainda é importante. Aqui na Europa, quando as pessoas são abordadas pela polícia, sabemos que são principalmente os negros e os pardos que sofrem esse controle. Nos EUA, também. Mas a própria ideia de raça é uma criação. Nós criamos essa ideia para diferenciar pessoas. O que dizer de uma pessoa negra nascida na França que se considera francesa? E de uma criança mestiça nascida no Quênia, filha de um avô holandês? Acredito que o cinema pode ajudar muito nessa questão, porque pode ultrapassar fronteiras e se concentrar naquilo que temos em comum como seres humanos. A condição humana é talvez a coisa mais importante que o cinema pode alcançar.
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