Cinema

O que o Leopardo viu de melhor

Enquanto vozes autorais brasileiras se preparam para invadir as telas de Locarno, o festival suíço - um dos mais prestigiados do mundo - consagra seus primeiros achados deste ano

O que o Leopardo viu de melhor

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Representante do Brasil na corrida pelo Leopardo de Ouro de 2026, "A Margem do Rio", de Enock Carvalho e Matheus Farias, fará sua estreia na competição oficial de Locarno na tarde desta terça-feira, com uma promessa de mistério e erotismo. Esse thriller queer acompanha os perigos em torno de um jovem zelador, Izaquiel (Caique Copque), depois de ele ser alocado na sede de uma seita evangélica, cujo pastor (Robério Diógenes) é uma figura controladora, com apreço por armas. Ítalo Martins, Artia Lauandah, Renna Costa e Ísis Broken integram o elenco dessa narrativa de forte dimensão sensorial, que parece confirmar o interesse autoral de Farias e Enock por personagens em conflito com a paisagem e com a própria identidade.

A presença brasileira no festival suíço, que inaugurou sua 79ª edição no último dia 5, estende-se para a mostra Cineasti del Presente, voltada para primeiros e segundos longas. Por lá, nesta quarta, a diretora Ana Vaz apresenta "Hanabi" (em inglês "Fire Flower"), reafirmando sua posição entre as vozes mais experimentais do cinema contemporâneo. Enquanto esse bonde nacional não dá o ar de sua invenção, confira o que Locarno viu de bonito este ano, fim de semana adentro.

BRAVE NEW LOVE, de Maria Bäck (Dinamarca/ Suécia): Duas estrelas da Noruega, Kathrine Thorborg Johansen e Anders Danielsen Lie, esbanjam talento neste delicado estudo sobre a fronteira entre desejo, responsabilidade e culpa. Na trama, a hipnoterapeuta Kate (Kathrine, em sublime atuação) mora com seu marido, Orla, e sua filha, Athena, ao mesmo tempo em que mantém um relacionamento profundamente romântico - e altamente secreto - com Andreas (o papel de Anders). Como modelo para sua filha, ela se esforça para manter a vida equilibrada, em meio a pesquisas rituais que envolvem a mitologia grega e uma gravidez não esperada. Dos títulos em disputa já vistos, é um dos maduros no âmbito da montagem.

GOAT, de Judy Kibinge (Quênia): Um tocante estudo sobre reparação histórica envolvendo disputas territoriais, construído com ecos fabulares. Quando o noivo da jovem Suki leva sua amada a uma quinta isolada, a fim de comprar uma cabra, ela quer sair dali imediatamente, sem entender a razão do desconforto. No entanto, depressa se apercebe de que a antiga árvore Mugumo está a exigir que ela salde uma dívida da qual nem sequer sabia que tinha.

REHMAT, de Gurvinder Singh (Índia): Consagrado em Cannes, há onze anos, com "O Quarto Código", o diretor deste drama coral é um cronista da resiliência. Seu roteiro se constrói a partir de três histórias interligadas no território de Punjab dos dias de hoje. Numa delas, uma mulher acolhe secretamente um estranho ferido na sua casa, enquanto a família dele suporta o peso do luto e de escolhas impossíveis. Entretanto, um idoso misterioso chega a uma aldeia, autodenominando-se Deus.

LA ILUSIÓN DE UN VERANO SIN FIN, de Alessandra Sanguinetti (Argentina): Esbanjando empatia, este documentário de acompanhamento foi rodado ao longo de 25 anos, atento às vidas de duas primas inseparáveis na zona rural do Pampa argentino, a começar como um jogo de fantasia da infância e evoluindo para um profundo estudo colaborativo sobre o tempo, a memória e a feminilidade.

O PROFETA, de Ique Longa (Moçambique): Ecoa Suíço adentro a força do desempenho de Admiro De Laura Munguambe no papel do pastor Hélder, que já não encontra mais amparo nas páginas da Bíblia. Hélder perdeu a sua fé no Senhor, o que é uma catástrofe para um sacerdote. Profundamente amado pelo povo da sua paróquia, em Manjacaze, ele vai buscar saída num reino inesperado: a bruxaria tradicional. Durante algum tempo, as forças que invoca funcionam a seu favor, até que, de repente, só lhe sobra o vazio. Brota daí um ensaio lindo sobre crença, que chegou a Locarno importado do Festival de Roterdã.

NEW YORK, MIRIAM ET MOI, de Rémy Schaepman e Léahn Vivier-Chapas (França): A mais potente animação vista em Locarno até aqui, centrada na área infantojuvenil do festival, revive a linhagem dos thrillers de espionagem, mas numa mirada mirim. O desenho se passa nos EUA de 1941. Quando seu pai desaparece misteriosamente, um garotinho precisa expor uma rede de conspiradores para salvá-lo. O problema: sua idade faz com que ninguém o leve a sério.

LOS DÍAS LIBRES, de Lucila Mariani (Argentina/ Brasil): Victoria Pereda é a diretora de fotografia desta coprodução entre tierras hermanas e vem sendo elogiada por seu esmero nos enquadramentos. Sua atmosfera é a de um futuro próximo. Num amanhã que não tarda a chegar, durante suas férias de verão intermináveis, com um eclipse solar a se aproximar, Bego, de 12 anos, luta para encontrar o seu lugar na família e entre as meninas de sua idade. À medida que a lua parece eclipsar os animais e as pessoas à sua volta, ela conhece REN__, um amigo online, que a inicia no shifting, uma prática em que os adolescentes acreditam que podem entrar noutras realidades através de sonhos lúcidos.