Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Interessada tanto em promessas autorais - como a alemã Ann Oren e o vietnamita Le Bao - quanto em artesões de longa estrada, vide a francesa Sarah Leonor e o sul-coreano Hong Sangsoo, a briga pelo Leopardo de Ouro de 2026 encontrou seu mais ousado concorrente - até agora - na zona francófona do Canadá. Lá, Denis Côté é uma usina de dramaturgia imparável. De sábado, ao fim da primeira sessão de seu "Violence Du Corps De L'Autre", até hoje, o Festival de Locarno não para de debater essa espécie de thriller existencialista, que encontra na morte um lugar de sublimação - tão forte quanto o sexo.
Na trama escrita e filmada por Côté, Mira, uma mulher solitária e de poucas palavras, viaja pelo mundo, encontrando pessoas desesperadas com quem parece estabelecer estranhos pactos mortais. Sem um destino aparente, ela se depara com Madeleine e Ludo, dois hedonistas de espírito livre que vivem nas profundezas da floresta. Ali, a moça começa a questionar as suas escolhas de vida.
Apoiado em enquadramentos avessos à obviedade, o cineasta mergulha no coração dessa personagem a fim de entender as angústias que a governam.
Visualmente, é o trabalho mais radical desse diretor de 52 anos, mais conhecido por "Vic Flo Viram um Urso" (2013). Poço de produtividade, com cerca de 30 filmes rodados e lançados de 2005 até hoje, num volume raro não só para seu território, Québec, mas para o audiovisual de verve autoral como um todo, Côté sempre bate ponto na competição oficial da Berlinale (ou em suas mostras paralelas), tendo criado vínculo com uma das mais prestigiosas vitrines para vozes de invenção. "Antologia da Cidade Fantasma" (2019) e o brilhante "Higiene Social" (2021) ilustraram sua mirada sobre a incomunicabilidade. Agora é a vez de Locarno avaliar sua realização mais audaciosa, que coincide com um momento de volta por cima de seu organismo, após uma convalescência de problemas renais.
No papo a seguir, via Zoom, Côté contextualiza seu universo.
Em geral, a solidão é um elemento quase físico em seus filmes, quase como se o vazio fosse um coprotagonista de suas histórias, sendo que "Violence Du Corps De L'Autre" parece tratar da condição solitária de uma outra forma, menos doída, mais propositiva. Que caminhos a solidão toma no seu cinema, neste novo trabalho?
Denis Côté - Eu fiz esse filme depois de um transplante de rim. Ele se estabelece entre a doença que me levou à cirurgia e uma nova fase da vida, em que me reencontro cheio de energia. Não o definiria como um trabalho autobiográfico, mas posso dizer que ele talvez seja o meu filme mais pessoal. Nessa medida, posso te dizer: eu sou uma pessoa muito solitária, mas que vive uma paixão pelos filmes que amo. Essa solidão que você observa eu reconheço, mas ela vem do fato de que todos somos solitários uns com os outros. Na maioria dos meus filmes, eu gosto de mostrar que podemos estar sozinhos em uma comunidade, ou com pessoas que fingem cuidar ou cuidam genuinamente de nós. O que há de novo aqui, pela minha condição de saúde, é que ele carrega mais liberdade. Eu filmava dizendo às pessoas que me perguntavam o que fazer: "Não sei. Faça o que quiser e vamos encontrando o filme".
O rendimento de seus elencos, sobretudo da atriz Larissa Corriveau, habitual colaboradora de sua obra, é sempre notável. Quer caminhos você segue em "Violence du Corpos de L'Autre" na construção da figura de Mira?
Não sou delicado, mas eu deixo espaços abertos para a troca. Talvez aqui eu tenha sido mais humanista, com mais empatia. Em alguns processos, com os atores, pareço estar intimidado por eles, e, noutros, eles podem se intimidar comigo. Com Larissa, pela intimidade da parceria que temos, já nem preciso falar nada, pois ela me entende em simples gestos.
Muitos de seus filmes têm núcleos femininos fortes. Há quem te atribua classificação bem parecida àquela que se usa para Pedro Almodóvar: "um diretor de mulheres". No entanto, a impressão nesse novo projeto é que você fala de almas, não de gêneros. Como se dá a sua abordagem da condição humana?
Gosto de te ouvir falar em "almas", pois acredito falar mais sobre seres humanos, espiritualmente, do que sobre masculino e feminino. Quando eu fiz "Un Été Comme Ça", um dos meus filmes que considero mais próximos do acabamento que buscava, muita gente se pôs a me perguntar qual era o direito de um homem heterossexual em falar sobre mulheres. Eu tive uma recepção boa, mas ela foi delicada nesse aspecto de gênero, pois era uma história sobre mulheres. Mas o interesse ali era a condição humana daquelas pessoas.
Como você avalia o cinema canadense que é feito hoje?
Você me pergunta sobre o cinema que se faz em Quebec, possivelmente? Pois é o cinema a que pertenço no Canadá, à parte que fala francês. O cinema de Quebec vive isolado, pois temos muita dificuldade de trocar com os Estados Unidos. A parte anglófila do Canadá tem um cinema que se mistura muito ao dos EUA. Nós, aqui, mal nos conectamos com Toronto. Temos uma luta para encontrar uma identidade. Aqui, nesta área, surgiram vozes como Xavier Dolan, eu, Monia Chokri, Jean-Marc Vallée (morto em 2021), Denis Villeneuve.
Qual será o seu próximo projeto?
Será uma adaptação de um livro japonês chamado "Revólver".
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