Dá uma pena perceber que o melhor filme brasileiro de 2026 - até agora - não terá vez em tela grande, apesar de todo o capricho técnica que a Amazon assegura a seu serviço de streaming, a Prime Video, canteiro digital onde “Corrida dos Bichos” encontrou seu ninho. Embora a direção a seis mãos traga a assinatura de Ernesto Solis (idealizador do projeto) e de Rodrigo Pesavento, a presença de Fernando Meirelles leva esse thriller de aventura para uma outra dimensão – na artesania e no lastro social. É um longa-metragem inflamável, do qual não se desgruda um só segundo.
O quadro dramatúrgico do enredo é fracionável a uma estrutura que remonta tanto a livros como “Mas Não Se Matam Cavalos?” (1935), de Horace McCoy (1897-1955), quanto a cults das telas como “O Alvo” (1993), de John Woo (com Van Damme): ou seja, um dispositivo de disputa. Numa sociedade onde a lei soberana não é mais ditada pela Constituição e, sim, pela mídia, com a sobrevivência como único bem a ser alvejado por todos (das classes menos favorecidas), um jogo com referências animais aloca indivíduos numa corrida onde a morte é contraindicação inevitável. Cada participante assume o nome de um animal, um pouco como se dava no Jogo do Bicho clássico do lúmpen carioca.
Encontra-se aí uma distopia, com um pavimento futurista – estamos num Rio de Janeiro de daqui a pouco – tipo o “Rollerball” de 1975, numa linguagem de “Sessão da Tarde” R rated (ou seja, para 14 anos ou mais). Tem ação a rodo, como raras vezes se viu em nosso audiovisual, só ombreado pelo recente “Salve Geral: Irmandade”, de Pedro Morelli (um “John Wick” nacional), feito para a Netflix. A participação de Meirelles, contudo, modula essa produção num outro eixo simbólico.
Seu “Cidade de Deus” (2002), indicado a quatro Oscars, trazia uma mirada para um Rio periférico no qual a democracia era limada da realidade de suas personagens por inadimplências de um estado excludente. Não havia transcendência possível para Mané Galinha, Sandro Cenoura e Zé Pequeno que não fosse pelas armas. A polícia de Cabeção não dava outra opção e o governo da Cidade Maravilhava olhava para aquele conjunto habitacional como se ele estivesse no Estreito de Gibraltar, ou seja, longe demais do cartão-postal que atrai turistas. Assim sendo, o PM que se incumbe da região abandona o local em meio a uma guerra, dizendo: “Deixa que eles mesmos se matem”.
Passou-se quase um quarto de século desde que essa frase se fez ouvir. Meirelles fez outros filmes e séries, a se destacar o memorável “Ensaio Sobre a Cegueira”, que abriu Cannes em 2008. No fluxo de tempos, amadurecido, ele vislumbra (e imprime na imagem) uma saída democrática para o povo oprimido do Brasil: os Estados de Exceção.
Esse termo foi apontado pelo filósofo Giorgio Agamben, em referências a instâncias sociais nas quais o Poder é exercido por microfísicas silenciosas, nas franjas das dinâmicas legais. Num artigo para o periódico “Nuovi Argomenti”, Agamben ajuda a ler o arranjo que “Corrida dos Bichos” traduz como cinema: “À primeira vista, a exposição da relação entre violência e política pode parecer uma tarefa contraditória. Segundo uma tradição que remonta às origens da História de um velho mundo, violência e política de facto se excluiriam reciprocamente. Os gregos, que inventaram quase todos os conceitos de que atualmente fazemos uso para exprimir a nossa experiência da política, designavam precisamente com o termo ‘pólis’ o modo de vida fundado sobre a palavra e não sobre a violência. Ser político, viver na pólis, significava antes de mais aceitar o princípio de que tudo fosse decidido através da palavra e da persuasão, e não com a força e a violência.”
Numa maciez que é difícil de explicar, justificada por um trauma de outrora, a controladora de jogos (ou bicheira) Nadine (Ísis Valverde, em fina atuação) consegue talhar uma força bruta chamada Mano (o dionisíaco Matheus Abreu de “Dois Irmãos”) numa espécie de gladiador moderno, ao dar a ele o caminho da retórica como veio revolucionário. Ele é cria de um submundo que despreza o tal “Survivor” em que o Rio se afogou. Tal afogamento é animado, numa lógica de videopôquer sangrenta, por uma VJ, Divina, malandramente encarnada por Anitta. O cortiço a céu aberto a que Mano pertence, com a irmã Dalva (Thainá Duarte) e o padrasto Baco (Seu Jorge, numa composição oracular que lembra o compositor do Cantagalo Adão Xalebaradã), chama-se Perímetro da Morte. Ali, esse Atlas (sub)urbano vai se dando conta, aos poucos, num alumbramento clássico do heroísmo, que seus feitos podem gerar resistência. Na união, mesmo as bocas famintas, podem impor força contra o paredão de um Big Brother assassino. A espiadinha que se dá na intimidade alheia está sujeita a cortes e socos.
Nessa radiografia de mundo, Meirelles, Pesavento e Sollis (coautor do roteiro com Eva Klaver, Marco Abujamra e Rodrigo Lages) encontram veios para esmiuçar figuras satélites responsáveis por manter o ethos corrupto da Corrida dos Bichos de pé. Abu, a Cobra, é a figura (a um só tempo) mais peçonhenta e mais complexa de todas. A escolha de um astro em fase de madurez – o colosso Rodrigo Santoro - para assumir o papel fabrica camadas que blinda o filme de qualquer maniqueísmo óbvio. A interpretação de Santoro, qual um Zé Pelintra em cena, lembra a de Alan Rickman (1946-2016= em “Duro de Matar” (1988) e em “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” (1991). Abu é a serpente de caninos afiadas de que os bicheiros precisam. Bruno Gagliasso é um Castor de Andrade que usa seus préstimos de apontador. Sem ele, a banca quebra, e o Rio quebra (ou melhor, sangra junto).
A fotografia de Gustavo Hadba assegura que essa metrópole distópica não seja um arremedo das Austrálias de “Mad Max”. A luz dele livra o argumento de parâmetros hollywoodianos, agarrando-se a uma estética de brasilidade latente. Já a montagem de Lucas Gonzaga, qual dinamite, explode na cabeça da gente uma série de boas referências (“Guerra Mundial Z”, entre elas), encontrando uma identidade própria. É um filme de vísceras. Um filme vivo, que não tem medo de ser espetáculo.
Rodrigo Fonseca é crítico de cinema do Correio da Manhã
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