Correio da Manhã
Cinema

Estação Martel

Cultuada como uma bússola de invenção no cinema latino, a diretora de 'O Pântano' vem à cidade, como convidada do FID:RIO, para falar da estética que renovou telas na Argentina

Estação Martel
A diretora argentina Lucrecia Martel é o maior patrimônio artístico da região de Salta em forma de gente Crédito: Divulgação

Encravada no fértil Vale de Lerma, aos pés da Cordilheira dos Andes, situada a cerca de 1,2 mil metros de altitude, Salta é um dos principais polos culturais, econômicos e turísticos do noroeste da Argentina. Fica a cerca de 1,5 mil KM de Buenos Aires, o que dá duas horinhas de avião de distância - e cerca de 16 horas se a viagem for de ônibus. Fundada em 1582 pelo espanhol Hernando de Lerma, a cidade preserva um dos mais ricos conjuntos de arquitetura colonial do país, o que lhe rendeu o apelido de "Salta, la Linda".

Com cerca de 620 mil habitantes, essa zona se destaca também por sua posição estratégica nas ligações com a Bolívia e o norte do Chile, além de abrigar universidades, museus e um aeroporto internacional que a transformaram em uma das principais portas de entrada para o turismo andino argentino. Seu maior patrimônio artístico (em forma de gente), edificado dos anos 1990 para cá, chega ao Rio de Janeiro nesta terça: a cineasta Lucrecia Martel.

Macaque in the trees
'O Pântano' (La Ciénaga) foi laureado na Berlinale de 2001 e pode ser visto na MUBI | Foto: AD Vitam Distribution

Eleita para o Panteão de vozes autorais da América Latina logo que estreou nos longas-metragens de ficção com "O Pântano" ("La Ciénaga", em 2001), ela vai apresentar seu mais recente filme, o premiado documentário "Nuestra Tierra" ("Nossa Terra") — lançado ano passado em pré-estreia mundial no Festival de Veneza — em sessão única neste 28 de julho, no Estação Claro Rio, em Botafogo, às 18h30.

Após a projeção, haverá um bate-papo entre a cineasta e o público, com mediação do cineasta Eduardo Valente. No dia seguinte (29/7), Lucrecia ministra uma masterclass gratuita no Teatro Sesc Ginástico, no Centro. Sua visita foi assegurada pelo FID:RIO - Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro, inaugurado na semana passada. O evento ocupa vários espaços culturais cariocas até o dia 2 de agosto.

A engenharia sonora das narrativas fílmicas sempre ganha tratamento de luxo das mãos da realizadora, em suas ficções e em projetos experimentais. É o que se nota em um dos seus exercícios cinematográficos mais recentes, "Cornucopia", rodado a dois com a diretora Isold Uggadottir, a partir de um show da islandesa Björk. O filme anterior a esse, "A Camareira", exibido na Mostra de São Paulo de 2022, é um curta carregado de elementos fantásticos.

Vencedor do prêmio de Melhor Filme no London BFI, o Festival de Londres, "Nuestra Tierra" investiga o assassinato do líder indígena Javier Chocobar, em 2009, morto durante um conflito pela posse de terras da comunidade Chuschagasta, na província de Tucumán, no norte da Argentina. O julgamento do crime vira o eixo da narrativa, mas nunca seu único horizonte. O que interessa a Martel não é apenas reconstruir um caso judicial, mas compreender as estruturas históricas que tornaram essa violência possível. Suas imagens falam sobre a luta por terras ancestrais e o legado de 500 anos de colonialismo.

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'Nuestra Tierra' joga seu foco na figura de Javier Chocobar, líder indígena assassinado | Foto: Divulgação

"Quando eu era mais moça, eu costumava falar em classes sociais e suas diferenças, mas percebi que, hoje, o conceito político mais adequado à divisão da sociedade latino-americana seria 'casta', dado ao processo de concentração de renda que vemos no processo capitalista e a separação que ela gera entre pessoas que não se encaixam em determinadas faixas de renda", disse Lucrecia ao Correio da Manhã quando lançou seu último longa de ficção, "Zama" (2017), produzido por Vânia Cattani (Bananeira Filmes) e pela El Deseo dos irmãos Almodóvar.

Presidente do júri de Veneza em 2019, quando "Coringa" ganhou o Leão de Ouro, Lucrecia é respeitada por suas reflexões feministas e pela mirada política contestadora que faz de seu continente. Esses elementos movimentam seu seminal curta "Terminal Norte", lançado pela Berlinale, na Alemanha, em 2022, e hoje em cartaz na plataforma MUBI. No www.mubi.com, encontra-se ainda "A Menina Santa", que foi indicado à Palma de Ouro de 2004 ao narrar os processos de amadurecimento de uma adolescente em meio ao clamor do desejo. Seu enredo é o mote para que a diretora examine a crise existencial da classe média argentina, o funcionamento da sociedade e a mecânica social sufocante de seu país, hoje assolado pela presidência de Javier Milei.

Seu prestígio como autora foi deflagrado com "O Pântano", que saiu laureado da Berlinale de 2001 com (o hoje extinto) troféu de investigação de linguagem chamado Alfred Bauer. Também há como vê-lo na MUBI. Em seu roteiro, as vidas de duas famílias - uma de classe média urbana, outra de produtores rurais decadentes - estão entrelaçadas no estupor provincial de uma Salta caótica e imutável, onde nada acontece, mas tudo está prestes a explodir, qual a charneca que lhe serve de título. Duas grandes atrizes, Mercedes Morán e Graciela Borges, fazem parte de seu elenco. A forma como Lucrecia extrai dor das duas é uma aula de como dirigir forças da natureza.