Correio da Manhã
Cinema

Tudo azul uma vez mais

Ganhador do Grande Prêmio do Júri na Berlinale 2025, filme do pernambucano Gabriel Mascaro ambientado em solo amazônico volta às telas em projeto da rede UCI

Tudo azul uma vez mais
Premiado em Berlim, 'O Último Azul', com Denise Weinberg e Rodrigo Santoro, volta ao circuito um ano depois Crédito: Divulgação

Tá osso a saúde para a produção nacional atrair a atenção das plateias e levar o público a comprar ingresso neste 2026 de vacas magras para a nossa filmografia, o que torna muito bem-vinda a ação da rede UCI neste início de semana. Seus multiplexes no Rio, nesta segunda e nesta terças, trarão sucessos e cults de 2025 de volta. Esta ação, nestes dias 27 e 28 de julho, leva o nome de UCI Day Cinema Brasileiro, com a exibição de oito longas finalistas do Prêmio Grande Otelo, a ser entregue no dia 4 de agosto, no Teatro Municipal, pela Academia Brasileira de Cinema. Todos os ingressos custam R$ 10, válido para todos os clientes. Entre as muitas boas iguarias que voltam à cena, encontram-se especiarias amazônicas em "O Último Azul", que está prestes a comemorar 365 dias de lançamento.

Com cerca de 185 mil ingressos vendidos em circuito nacional, "O Último Azul" não cessa de dar alegrias para o Brasil desde fevereiro de 2025, levando nosso audiovisual planeta adentro, a extremos geográficos da Terra. Transformado em ímã para o olhar estrangeiro depois de conquistar o Grande Prêmio do Júri da 75ª Berlinale, em fevereiro, a produção ambientada na paisagem fluvial amazonense abriu Gramado, agosto passado, e, meses depois, em novembro, foi a o Egito para abrir a 46ª edição do Festival do Cairo. Gabriel Mascaro, seu realizador, conquistou com essa escalação mais prestígio e um lugar estratégico no planisfério audiovisual.

Macaque in the trees
'O Agente Secreto', sensação em Cannes, tamném integra a programação | Foto: Cinemascòpio

No cardápio do UCI Day tem "O Agente Secreto", tem "Manas", tem "Sexa", tem "Os Enforcados". Em tão potente selecão,

a brasilidade aflora, com destaque para o CEP da Amazônia, filmada por Mascaro, um diretor egresso de Pernambuco. "Ventos de Agosto" (2014) abriu a gira de sua consagração.

O esplendor da maior floresta do mundo, enquadrado por Mascaro sob vetores de realismo mágico, deslocou-se do Cairo para a Estônia, porção báltica da Europa, onde "O Último Azul" teve uma sessão no festival POFF Tallin Black Nights.

Às vésperas do carnaval de 2025, a Alemanha referendou o trabalho de Mascaro, que, onze anos atrás, venceu o Festival do Rio e ganhou o Prêmio do Júri dos Horizontes venezianos, no Lido, com "Boi Neon". Uma ovação em forma de urro contagiou a Berlinale Palast, debaixo de dois graus do frio, ao fim da exibição de "O Último Azul" na luta pelo Urso de Ouro de 2025. Guadalajara, Sydney, Valladolid e Buenos Aires também exibiram o longa em seus festivais e celebraram a destreza do realizador de "Divino Amor" (2019) ao guiar a câmera por afluentes do Amazonas, driblando os clichês na representação daquela selva.

"Vou da utopia para chegar à distopia", disse Mascaro ao Correio da Manhã, no Rio Grande do Sul, quando "O Último Azul" abriu o Festival de Gramado, em agosto. "É um ensaio fantástico com a Amazônia em toda sua contradição".

No enredo que as telonas da UCI conferem segunda e terça, o governo brasileiro passa a transferir idosos para uma colônia habitacional para "desfrutarem" seus últimos anos de vida em isolamento. Antes de seu exílio compulsório, Tereza, uma mulher de 77 anos (vivida por Denise em colossal atuação), embarca em uma jornada para realizar seu último desejo: ter dignidade... para com ela ser livre.

"Esse projeto foi um presente. Na Amazônia, tudo o que um ator não pode fazer é atrapalhar o roteiro. Para isso, eu escuto o texto", disse Denise, coroada no México com o prêmio Maguey por sua atuação.

Além de um Urso prateado, esse river movie existencialista ganhou da Berlinale o Prêmio do Júri Ecumênico e um mimo de leitores/as do jornal germânico "Berliner Morgenpost". Cada uma dessa vitórias atraiu holofotes para Denise, que nunca se deixou encantar pela badalação.

"Aquele cenário era um palco, cheio de árvores, e eu olhava para ele reverente. Há sempre que se ter reverência pelo local em que se trabalha. Ali, a Natureza é muito potente", explica a atriz.

Destaca-se a presença luminosa de uma estrela (também) hollywoodiana no elenco de Mascaro: o ator petropolitano Rodrigo Santoro. Consagrado com sucessos na TV ("Westworld"), nos streamings ("7 Prisioneiros") e na telona, entre "Carandiru" (2003), "300" (2007) e o recente "O Filho de Mil Homens", ele tem uma interpretação visceral em "O Último Azul". Seu personagem, Cadu, é um barqueiro que corre pelos rios amazônicos com a tristeza de ter perdido uma paixão, sua companheira Deusinha.

"Vejo no filme a importância de um homem tomar contato com sua fragilidade", disse Santoro ao Correio. "A floresta é professora. Aprendi tanto. Cheguei da cidade totalmente fora da sintonia. Aos poucos, fui sintonizando com o tempo e o espaço daquele lugar. Quando percebi, já estava conectado, escutando os sons da mata nos Igarapés".

É uma volta mais do que justa às telonas.