Bonito, no Mato Grosso do Sul, conhecida como a capital brasileira do ecoturismo, recebe até 1º de agosto a quarta edição do Bonito Cinesur — Festival de Cinema Sul-Americano. A programação anunciada sugere que o evento encontrou seu caminho entre a celebração estética da Sétima Arte e a inquietação política que atravessa o continente.
Bonito está localizada na Serra da Bodoquena, em uma região de transição entre dois biomas: o Cerrado e a Mata Atlântica. A cidade fica a cerca de 300 km de Campo Grande, numa área de formações calcárias, grutas e águas cristalinas — um ecossistema fascinante.
A cerimônia de abertura, na noite de 24 de julho no Auditório Kadiwéu do Centro de Convenções de Bonito, foi apresentada por Reynaldo Gianecchini e troux o longa "Querido Trópico", da panamenha Ana Endara. Coprodução entre Panamá e Colômbia, o filme acompanha o encontro entre Mercedes, uma mulher rica de meia-idade com demência, e Ana María, uma imigrante colombiana — num cruzamento de classes, afetos e fronteiras. Endara, que vem se firmando como uma das vozes mais consistentes do cinema produzido na América Central nos dias de hoje, aposta na potência que eclode do encontro entre duas solidões.
A grande homenageada da edição é a chilena Paulina García, atriz, diretora de teatro e dramaturga que coleciona personagens entre as mais complexas do cinema latino-americano recente. Foi dela o rosto que deu vida a Gloria, a mulher de meia-idade em busca de afeto no filme de Sebastián Lelio que lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim em 2013 — a primeira chilena a conquistar o prêmio. García transita com naturalidade entre sua autoralidade ("A Noiva do Deserto"), séries globais ("Narcos") e o teatro de sua Santiago natal, onde segue atuando e dirigindo. Sua presença em Bonito nos mostra que o cinema sul-americano produz atrizes capazes de carregar um filme inteiro nas costas com a mesma discrição com que Gloria carregava sua solidão.
Um dos momentos mais aguardados da programação é a pré-estreia nacional de "Honestino", documentário dirigido por Aurélio Michiles que reconstrói a trajetória de Honestino Monteiro Guimarães, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) entre 1971 e 1973, sequestrado e desaparecido pela ditadura militar brasileira em outubro daquele ano, aos 26 anos. O filme será apresentado pelo diretor e por Bruno Gagliasso (que tem atuação arrebatadora) neste sábado (25) e chega às salas comerciais em 13 de agosto. Honestino — o nome já é uma ironia trágica — foi geólogo, militante da Ação Popular Marxista-Leninista e um dos rostos mais emblemáticos da resistência estudantil ao regime. Sua história, que o festival resgata do esquecimento programado, dialoga diretamente com a sessão especial de "A História Oficial", clássico argentino de Luis Puenzo sobre os filhos de desaparecidos políticos, e com "Martírio", de Vincent Carelli, que aborda a violência contra povos indígenas. A curadoria do Bonito CineSur - a cargo de Cecília Diez, José Geraldo Couto e nosso crítico Rodrigo Fonseca - acerta em cheio ao trabalhar cinema e memória.
Carelli, aliás, será reconhecido pelo conjunto de sua obra durante a cerimônia do Troféu Pantanal e participa de uma Charla Cinematográfica sobre os 40 anos do Projeto Vídeo nas Aldeias — iniciativa que desde 1986 forma cineastas indígenas e já produziu mais de setenta filmes, transformando radicalmente a maneira como os povos originários são vistos (e se veem) na tela. É difícil exagerar a importância desse projeto: antes do Vídeo nas Aldeias, o indígena era quase sempre objeto do documentário; depois, tornou-se sujeito da própria imagem. A sessão especial de "Aldeia de Nalike", de Claude Lévi-Strauss e Dina Lévi-Strauss, na Sessão Memória Bonito Cinesur, completa esse arco com uma camada extra de sentido — o antropólogo francês esteve entre os Kadiwéu, no Mato Grosso do Sul dos anos 1930, e suas fotografias etnográficas são um registro precoce (e controverso) do contato entre olhares.
A programação competitiva reúne 32 títulos. Na Mostra de Longa-metragem Sul-Americano, seis filmes disputam o Troféu Pantanal, entre eles o brasileiro "A Vida de Cada Um", de Murilo Salles, e "¿Quién Mató a Narciso?", do paraguaio Marcelo Martinessi — que volta a Bonito depois de seu elogiado "Las Herederas". Na Mostra Ambiental, o destaque fica com "Mundurukuyü — A Floresta das Mulheres-Peixe", realizado por Aldira Akay, Beka Munduruku e Ricélia Akay a partir da cosmologia Munduruku nas margens do Tapajós, e Agua Invadida, da uruguaia Carolina Sosa, que investiga os impactos da pesca ilegal no Atlântico Sul. A Mostra Sul-Mato-Grossense, com oito filmes locais, reafirma o compromisso do festival com a produção regional — destaque para Fronteiriças, de Beatriz Abrahão e Izabella Corrêa, e Vípuxovuko — Aldeia, de Dannon Lacerda.
A programação infantojuvenil traz a pré-estreia de "Colegas e o Herdeiro", de Marcelo Galvão, continuação da franquia que conquistou o público jovem brasileiro, ao lado de "Eu e Meu Avô Nihonjin", de Célia Catunda. As oficinas de realização documental, roteiro, direção de fotografia e animação para crianças completam a vocação formativa do festival, que também oferece charlas sobre vozes femininas sul-americanas no audiovisual, aquisição e licenciamento de conteúdo e crítica de cinema.
O encerramento, em 1º de agosto, será apresentado por Paulo Betti e Valentina Herszage. Betti também conduz a Charla "Interpretação para Cinema e TV" no dia 31 de julho. Entre uma sessão e outra, Bonito oferece o que tem de melhor: águas cristalinas, grutas, cachoeiras e a certeza de que o cinema sul-americano, como a paisagem da cidade, é mais profundo do que parece à primeira vista.
SERVIÇO
BONITO CINESUR - FESTIVAL DE CINEMA SUL AMERICANO
Até 1/8
Programação completa em www.bonitocinesur.com.br
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