Ímã de ódio entre as multidões que consolidaram "A Odisseia" como um dos dez títulos de maior bilheteria do ano, no papel do escroque Antínoo, o ator inglês Robert Douglas Thomas Pattinson vive um 2026 de ar inveja a qualquer astro, nas mais variadas latitudes profissionais de uma carreira popularizada em "A Saga Crepúsculo" (2008-2012). Interpretar (e muito bem) o vilão do longa-metragem do momento é só parte de sua consagração atual.
Em maio, ele fez 40 anos e, pouco antes de aniversariar, teve o primeiro acerto comercial do ano: "O Drama". Sua química com a atriz Zendaya lotou as salas que exibiam essa comédia dramática sobre rinhas morais. Orçada em US$ 28 milhões, ela faturou US$ 132 milhões. No fim de semana passado, conforme essa DR em forma de cinema emplacava audiência em streamings, foi anunciada a inclusão de um de seus trabalhos mais esperados, "Primetime", de Lance Oppenheim, na competição pelo Leão de Ouro do 83° Festival de Veneza.
Oscar é a palavra que mais cerca seu desempenho, na boataria acerca da passagem desse thriller jornalístico pelo Lido, a sede do certame veneziano, que vai de 2 a 12 de setembro. Seu papel é o de um âncora de TV que caça predadores sexuais.
A mesma expressão ligada à estatueta dourada da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas hollywoodiana circunda as apostas em torno do épico de Christopher Nolan no qual Pattinson conspira contra Odisseu (Matt Damon) para ficar com a rainha Penélope (Anne Hathaway). Faz ruindade a rodo para alcançar seus objetivos. "As pessoas que pagam ingresso para ver os meus filmes me olham no olho e enxergam a minha arte. Construo meus trabalhos buscando referências que conversam com a minha cinefilia", disse o ator ao Correio da Manhã pouco antes de filmar "Tenet", com Nolan, em meio à passagem da produção EUA x Brasil "O Farol" pelo Festival de Cannes, em 2019.
Ali, o caminho de Pattinson já havia se afastado dos vampiros de "Crepúsculo" há pelo menos uns sete anos. No início de sua fama, quando parecia fadado a ser galã, ele driblou rótulos e foi procurar o canadense David Cronenberg, com quem filmou "Cosmópolis" (2012) e "Mapas Para As Estrelas" (2014). Em 2017, "Bom Comportamento", dos irmãos Josh e Benni Safdie, no qual fazia um ladrão sem caráter, sucateou de vez as gavetas onde os estúdios almejavam mantê-lo confinado. Passou ainda por outras vozes autorais transgressoras de quilate alto: Claire Denis (em "High Life") e James Gray (em "Z - A Cidade Perdida"). Há um ano, apareceu na tela grande sob a direção do aclamado artesão sul-coreano oscarizado por "Parasita": o diretor Bong Joon Ho. Fizeram a ficção científica "Mickey 17", hoje na HBO Max, na qual Pattinson vivia o protagonista e seu clone.
"Bong tem uma forma única de extrair riso de ações físicas de seus personagens, como eu o vi fazer em 'Memórias de um Assassino', e tentei me sintonizar com isso. O assustador de 'contracenar' consigo mesmo é que você não tem a medida de ritmo, pois faz uma parte da cena sozinho, e, depois, faz a outra. Usei elementos dos animes japoneses ao interpretar para encontrar um tom meu", disse Pattinson em resposta ao Correio na abarrotada coletiva de imprensa de "Mickey 17" na 75ª Berlinale, no dia 15 de fevereiro de 2025, quando a produção orçada em cerca de US$ 110 milhões fez sua pré-estreia internacional de luxo.
Sua sessão de gala foi ovacionada e a sessão de imprensa também rasgou corações. Havia gente acampada na porta do hotel Hyatt, uma das sedes do Festival de Berlim, para ver a chegada de Pattinson e sacar uma foto de um ator que, em 2022, assumiu a identidade secreta de Bruce Wayne em "Batman", de Matt Reeves. A parte dois está atrasada faz tempo, mas já está marcada para 2028. Sebastian Stan será Harvey Dent, promotor que, nas HQs, transforma-se no vilão Duas Caras, ao enlouquecer após sofrer um atentado com ácido no rosto. Scarlett Johansson estará em cena também, num papel ainda não confirmado.
Antes de "Batman II" fechar suas filmagens, Pattinson terá um outro potencial blockbuster para mostrar ao circuito: "Duna 3", de Denis Villeneuve, em que interpreta Scytale. Tem outro longa com ele para vir este ano, o thriller "Here Comes The Flood", via Netflix, que tem um detalhe brasileiríssimo: a presença do paulista Fernando Meirelles na direção.
O cineasta por trás de "Cidade de Deus" (2002) convocou Pattinson para contracenar com Denzel Washington numa narrativa em torno de um assalto. Com caminhos abertos em muitas frentes, o ator pode galgar uma fase de apogeu. E merecida.
No Brasil, Wendell Bezerra virou sua voz oficial nas dublagens de seus longas e, num depoimento ao Correio, destacou o quanto ele é perseverante: "Depois do enorme sucesso de 'Crepúsculo', Pattinson percebeu rapidamente que poderia ficar preso à imagem daquele personagem. Em vez de seguir apenas por esse caminho, optou por buscar papéis mais desafiadores em produções menores, mas artisticamente muito mais ousadas. Fez filmes como "Bom Comportamento" e vários outros trabalhos independentes, sempre compondo personagens radicalmente diferentes entre si, com sotaques, gestos, maneiras de falar e perfis psicológicos muito distintos. É justamente isso que faz dele um dos atores mais difíceis — e também mais gratificantes — de dublar. Pattinson interpreta de forma extremamente orgânica. Ele não parece estar reproduzindo um texto decorado; dá a impressão de que está construindo cada pensamento no momento da cena", diz Wendell, um dos dubladores mais respeitados do país. "Depois de mais de quatro décadas de carreira, posso dizer que Robert Pattinson está entre os melhores atores que já tive a oportunidade de acompanhar de perto".
Daí tanto prestígio.
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