Correio da Manhã
Cinema

No rugido do leopardo suíço

Com projeção de cópia restaurada de 'Dança Com Lobos' e tributos a Isabella Rossellini, Asia Argento e Darren Aronofsky, o Festival de Locarno promete edição destinada à posteridade

No rugido do leopardo suíço
Restaurado em Zurique, 'Dança Com Lobos', de Kevin Costner, ganha uma versão estendida na Piazza Grande de Locarno Crédito: Dances With Wolves Productions, Inc

Contam-se nos dedos os diretores artísticos de festivais (sobretudo aqueles de prestígio AA) capazes de desfilar conhecimento sobre a produção chinesa e mudar a chave, para citar um clássico trash, como "Alligator - O Jacaré Gigante" (1980), da forma como o suíço Giona A. Nazzaro, de Zurique, faz. É por isso que ele repaginou Locarno de uma forma inesperada para a cinefilia, sobretudo diante de um obstáculo cronológico: em seus quase 80 anos de existência, o evento cinematográfico mais famoso da Suíça se situa entre Cannes e Veneza.

Ou seja, quem foi brigar pela Palma de Ouro não tem como concorrer na seleção de Giona e, quem almeja ter vez na disputa pelo Leão de Ouro prefere seguir inédito. Ainda assim, com sua diplomacia, o crítico e curador consegue, desde o início da sua gestão, em 2021, ter sempre medalhões em sua mostra competitiva oficial, em disputa pelo Leopardo de Ouro. Aleksandr Sokurov, Lav Diaz, Naomi Kawase, Hong Sangsoo, Wang Bing e Radu Jude estrearam suas pérolas mais recentes com ele. Em 2022, o Brasil concorreu lá, com "Regra 34", de Julia Murat, e destacou-se com o troféu mais cobiçado. Este ano, o anúncio de quem concorre sai na quinta e a torcida por nossa claque de vozes autorais é ampla.

"Uma curadoria pode ser tudo, menos chata e previsível", explicou Giona ao Correio da Manhã logo que foi empossado, abrindo espaço para exibições de títulos do catarinense Rogério Sganzerla (1946-2004), de quem é fã. "Ser eclético não é ser inclusivo. Eu prefiro a inclusão ao ecletismo. Por isso, é importante juntar revelações com vozes já consagradas. E há um cuidado de se valorizar a produção suíça numa mostra de longas à parte e, também, na seção de curtas, pois há muita coragem nos filmes da nova geração de cineastas de nosso país".

 

Macaque in the trees
o crítico Giona A. Nazzaro, curador do Festival de Locarno | Foto: Alessandro Crinari/Ti-Press

Alguns cardápios da 79ª edição, agendada de 5 a 15 de agosto, já foram anunciados, com destaque para a criação de uma área de títulos em concurso na seção Locarno Kids. A prata da casa será representada por meio de um documentário: "Derborence - Le Temps des Animaux", dirigido por Vincent Chabloz. A animação marca presença com o francês New York, "Miriam et Moi", de Rémy Schaepman e Léahn Vivier-Chapas, e com o colombiano "Mu-Ki-Ra", assinado por Estefanía Piñeres Duque. A seleção inclui ainda a aventura mexicana "Los Nuevos", de Rodrigo Plá; os dramas de formação "L'Estate Che Finì Due Volte", do italiano Matteo Incollu, e "Paradeisa", da alemã Marleen Valien; além do .doc social dinamarquês "If Luck Will Come", de Camille Bildsøe, que segue um circo criado para crianças em situação de vulnerabilidade no Afeganistão. O vencedor será escolhido por um júri formado por jovens entre 11 e 15 anos, decisão que reforça a proposta do festival de colocar crianças e adolescentes num debate sobre cinema contemporâneo.

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"Mu-Ki-Ra" leva o cinema animado produzido em terras colombianas ao Festival de Locarno, na competição Kids | Foto: Proimágenes Colombia

No dia 7, a Piazza Grande, a praça da cidade vai revisitar um ganhador de Oscar numa versão ampliada e restaurada (pelo laboratório Cinegrell, de Zurique): "Dança Com Lobos" (1991), de Kevin Costner. O faroeste épico do astro de "O Guarda-Costas" (1992), que ganhou sete Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, ajudou a redefinir o gênero na virada da década de 1990 e chamou a atenção mundial para a situação histórica dos povos indígenas no continente americano. A sessão desse western terá quase quatro horas, por incorporar cerca de meia hora de material adicional inédito.

Na ala de homenageados deste ano, Locarno concederá honrarias à estrela belga Virginie Efira (recém-laureada em Cannes, pelo filme japonês "Soudain") e a duas atrizes de DNA italiana que também são diretoras: Isabella Rossellini e Asia Argento, ambas filhas de cineastas míticos (no caso, Roberto Rossellini e Dario Argento). Haverá troféu honorário ainda para o realizador Darren Aronofsky e o produtor Sigurjón "Joni" Sighvatsson.

Inaugurado na noite de 23 de agosto de 1946, no Grand Hotel, com a exibição de "O Sole Mio", de Giacomo Gentilomo, Locarno tem consagrado grifes de autoralidade com seu Leopardo dourado desde então. Na era Giona, além de "Regra 34, a láurea foi dada ao filme de luta "Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash", do indonésio Edwin; ao thriller "Critical Zone", do iraniano Ali Ahmadzadeh (2023); ao drama "Toxic", da lituana Saule Bliuvaite (2024); e à investigação existencialista "Duas Estações, Dois Desconhecidos", do japonês Sho Miyake. Em 2021, o Pardo di Domani, o prêmio de curtas, foi para "Fantasma Neon", do carioca Leonardo Martinelli. Ano passado, o curta "O Rio de Janeiro Continua Lindo", de Felipe Casanova, foi laureado lá.