Correio da Manhã
Cinema

Cinema belga amplia prestígio com novos autores e presença em festivais

Depois de sair premiada de Cannes com 'Coward', de Lukas Dhont, a pátria dos Dardenne e de Chantal Akerman renova sua produção e prepara um Festival de Bruxelas bombado

Cinema belga amplia prestígio com novos autores e presença em festivais
'Coward' narra a paixão de dois jovens soldados envolvidos com teatro na I Guerra Mundial Crédito: Diaphana

Incluída na competição oficial do Festival de Locarno (agendado de 5 a 15 de agosto na Suíça) com "Melk", de Filip Anthonissen, a Bélgica passou os últimos 30 anos apoiada na excelência dos contos morais dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, vencedores da Palma de Ouro com "Rosetta" (1999) e "A Criança" (2005), usando-os como seu estandarte. Ganhou um reforço simbólico em 2022, quando a revista "Sight and Sound", elegeu "Jeanne Dielman" (1975), da bruxelense Chantal Akerman (1950-2015), "o maior filme da História" em votação da crítica. Ainda assim, sua produção costuma ser mais lembrada por coproduções com a França.

Macaque in the trees
'Dust', da diretora Anke Blondé, um thriller sobre especulação financeira, representou na Bélgica na briga pelo Urso de Ouro | Foto: Toon Aerts/Divulgação

Ações cada vez mais contínuas se desenham, a partir da produção artística daquela pátria, para fazer de seu audiovisual uma grife, amparada sobretudo no êxito em ascensão do jovem diretor Lukas Dhont (de "Close"). Ele foi uma das sensações de Cannes, em maio, com "Coward", um romance queer com base no amor entre dois soldados da I Guerra, que rendeu a láurea de Melhor Interpretação para Emmanuel Macchia e Valentin Campagne na Croisette. Crescente também é o prestígio de Jochim Lafosse, duplamente laureado em San Sebastián, em 2025, com "Seis Dias Naquela Primavera", agraciado com os troféus de Melhor Direção e Melhor Roteiro. A presença belga recente em importantes competições, como a briga pelo Urso Ouro da Berlinale - ao qual concorreu em fevereiro, com o thriller "Dust", de Anké Blonde -, também foi um reforço importante para sua indústria. Igualmente expressiva foi a presença de "Comme Un Château Fort", de Lou Colpé, no Visions Du Réel, maratona documental de fama mundial.

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'Comme Un Château Fort' deslumbrou olhares no Visions du Réel | Foto: Divulgação

A reação mais significativa daquela população da Europa na telona vem em setembro, com a realização do Festival de Bruxelas, um evento competitivo que redesenha a visibilidade do patrimônio cinéfilo daquela nação. Sua nona edição decorre de 4 a 12 de setembro.

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Cartaz do BRIFF, agendado para setembro | Foto: Divulgação

Criado em 2018 para devolver à capital belga um festival internacional de grande porte, o Brussels Film Festival, ou BRIFF, consolidou-se rapidamente como uma vitrine do audiovisual do país e da Europa. Em apenas oito edições, tornou-se um ponto de encontro entre produções nacionais e o circuito internacional, reunindo competição mundial, mostra belga, retrospectivas e sessões especiais. Entre os vencedores de sua competição principal estão "The Barefoot Emperor", de Jessica Woodworth e Peter Brosens; "Ghost Tropic", de Bas Devos; "Playground", de Laura Wandel; "Um Varón", do colombiano Fabián Hernández; e "Omen", do congolês Baloji.

Este ano, "Notre Salut", de Emmanuel Marre, laureado em Cannes com o Prêmio de Roteiro (ao falar de colaboracionismo na França ocupada), abre o evento. Já foram os primeiros títulos da Competição Nacional de Bruxelas. Entre eles estão "Ceci N'est Pas Un Film Français", estreia em longa de Tom Adjibi, que discute os estereótipos enfrentados por atores negros na indústria audiovisual francesa e belga; "Frontera", de Judith Colell, ambientado na resistência europeia durante a Segunda Guerra Mundial; o já citado (e badalado) .doc "Comme Un Château Fort", inspirado na própria trajetória de sua diretora em busca de um amor sumido; "The Silent Treatment", de Caroline Strubbe, que encerra uma trilogia iniciada há quase vinte anos; a animação "Gregor", de Manuel Gomez, exibida recentemente em Annecy; e "Kwibuka, Se Souvenir", de Jonas d'Adesky, drama sobre memória e o legado do genocídio em Ruanda.

Novas atrações serão anunciadas nas próximas semanas, revitalizando uma genealogia das mais criativas no culto à autoralidade. A história do cinema belga antecede até mesmo a invenção do cinematógrafo dos irmãos Lumière. Em 1836, o físico belga Joseph Plateau (1801-1883), professor da Universidade de Ghent, criou o fenacistoscópio, dispositivo considerado um dos precursores da animação e da linguagem cinematográfica. A primeira projeção pública de filmes na Bélgica ocorreu em 1º de março de 1896, em Bruxelas, e, poucos anos depois, o francês Charles Pathé (1863-1957) impulsionou a produção local por meio do estúdio fundado em 1910 por Alfred Machin (1877-1929). Nas décadas seguintes, o país consolidou uma tradição documental com Charles Dekeukeleire (1905-1971) e Henri Storck (1907-1999), enquanto Jan Vanderheyden (1887-1953) popularizou adaptações literárias como "De Witte" (1934). A animação belga ganhou projeção internacional graças a Raoul Servais (1928-2023), vencedor da Palma de Ouro de curta-metragem em Cannes por "Harpya" (1979). Chantal e os Dardenne, cada um à sua maneira, mantiveram acesa a vitalidade daquela cinematografia, reforçada ainda por sucessos como "Alabama Monroe" (2012), de Felix van Groeningen; "O Novo Testamento" (2015), de Jaco Van Dormael, e "L'Intérêt d'Adam", de Laura Wandel.

Quatro anos depois de vencer o Prêmio do Júri de Cannes com "As Oito Montanhas" (2022), que rodou em dupla com sua companheira, a atriz Charlotte Vandermeersch, Groeningen deve chacoalhar os ânimos do Festival de Veneza, em setembro, com "Let Love In", brigando por um Leão de Ouro para a Bélgica.