Correio da Manhã
ENTREVISTA

Marcus Baldini: 'Hoje, a maior dificuldade que temos no cinema brasileiro é conquistar o público nas salas'

Marcus Baldini: 'Hoje, a maior dificuldade que temos no cinema brasileiro é conquistar o público nas salas'
Marcus Baldini, cineasta Crédito: Divulgação

Cerca de três anos depois de desafiar as convenções do thriller com "O Sequestro do Voo 375", Marcus Baldini abre um espaço numa agenda hoje povoada pela finalização da sequência de "Bruna Surfistinha" (2011), de seu maior sucesso, para um projeto também ligado a universos de ilegalidade: "Storm". No último Festival de Cannes, em maio, ele passou pelo Marché du Film com um projeto (de Fôlego) com roteiro de Homero Olivetto, inspirado nos feitos digitais do hacker Wanderley de Abreu Jr. Aos 19 anos, ele invadiu a rede da NASA e, pouco depois, colaborou com o Ministério Público do Rio de Janeiro na primeira grande investigação de pedofilia online do país.

Coprodução entre a Amálgama Entretenimento, Paris Produções e a espanhola DACSA Produccions, o longa está em fase final de captação, tem filmagens previstas para 2027 e estreia programada para 2028, quando se completam 25 anos da mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente que passou a tipificar explicitamente os crimes de pedofilia online. Em conversa com o Correio da Manhã, Baldini, um campeão de bilheteria, fala sobre a construção desse protagonista.

Qual é a abordagem para a figura de Wanderley de Abreu numa linha de jornada do herói? O que ele simboliza em termos de dramaturgia para a narrativa?

Marcus Baldini - "Storm" é uma história de um garoto que tem uma vida se abrindo no Rio de Janeiro, mas que acabou de viver uma invasão à NASA. É um hacker promissor, genial e muito fora da curva dentro do Rio da década de 1990. Ele se envolve numa investigação, que é a Operação Catedral, movida pelo Ministério Público do Rio, e vai tomar contato com um mundo sombrio que ele não imaginava existir. Essa é a história de um garoto que vai entendendo como pode ser difícil, sombrio e dolorido conhecer lados da humanidade que, num momento inicial, ele achava que não existiam. Com os instrumentos emocionais que tem, ele entra numa jornada de obsessão por resolver esses crimes, contribuindo com o que foi a primeira operação de prisão de pedófilos no Brasil. É uma trama que fala da perda da inocência.

De que maneira esse universo dos hackers aponta para práticas relacionais que têm no ambiente digital uma forma de conexão com o mundo?

Esse é um tema muito atual. A forma como a gente hoje se relaciona com o digital cria, dentro do próprio ambiente da web, uma ilusão de que aquilo tem uma conexão com o mundo real às vezes mais forte do que imaginamos. De que forma podemos, dentro desse universo, mostrar lados que... talvez... no mundo real, não mostrássemos? Os hackers têm justamente esse olhar. Um olhar de um lugar um pouco anárquico, de subversão das leis, um lugar de libertação, muitas vezes, de amarras que determinados sistemas políticos ou ideológicos colocam. Têm um lado que se conecta muito com o personagem do Wanderley: o do justiceiro.

De que forma "Storm" amplia a mirada que você trouxe de "Bruna Surfistinha" para um (sub)mundo de moral que escapa das convenções de bom comportamento?

Existe um interesse por esse personagem justamente por ele transitar dentro de um universo que subverte as convenções sociais, um status quo mais comportado, ligado às leis e aos bons costumes. Talvez isso tenha uma conexão com esse lado subversivo da Bruna. São personagens disruptivos que tentam romper com o universo em que estão inseridos. Eles tentam ser de outra maneira, têm um tom libertador, uma busca por identidade. Storm tenta resolver as coisas através de outra lógica e, inclusive, as burocracias dos ritos processuais acabam sendo obstáculos para a própria noção dele de justiça. Numa trajetória diferente da Bruna, posso dizer que ele também subverte as expectativas de bom comportamento por ser um hacker que utiliza todas as suas técnicas e táticas a serviço de uma jornada de justiça. A Bruna vivia uma jornada mais individual. Ela era uma personagem mais centrada nela mesma.

O primeiro "Bruna Surfistinha" vendeu 2,1 milhões de ingressos, com base num relato real. Que cinema você acredita estar construindo ao tratar de figuras/eventos reais de um Brasil que encontra alternativas nas franjas da ilicitude para sobreviver?

Eu acredito muito num cinema que fala de figuras brasileiras e de eventos reais que se conectam com a sociedade brasileira e com o espectador. Sempre tento fazer um cinema que se conecte com o público. Hoje, a maior dificuldade que temos no cinema brasileiro é conquistar o público nas salas. Eu busco isso desde "Bruna Surfistinha", trazendo uma mistura que considero muito positiva: entretenimento e reflexão. Quero fazer filmes que façam alguém pensar sobre o Brasil, sobre o meio em que vive, sobre a História do país, mas que, ao mesmo tempo, tenham contestação, com reflexão e entretenimento.

O que vem pela frente, além de "Storm"?

Tem um projeto que eu adoro, que é a biografia do cantor Nelson Ned, baseada no livro do André Barcinski. É um filme cujo roteiro estou desenvolvendo e quero fazer em espanhol. O Ned é o maior vendedor brasileiro de discos na América Latina, com números impressionantes, um artista comparável ao Julio Iglesias, e o Brasil tem pouca noção dessa dimensão. A história humana dele, com toda a questão do nanismo e da família, é incrível. Também estou fazendo a adaptação do livro "Entre Gados e Homens", da Ana Paula Maia. Será um filme falado em espanhol. A Ana Paula é uma escritora de enorme sucesso na América Latina. É uma coprodução com Colômbia e México. Estou trabalhando também em "Bruna Surfistinha 2", que será lançado em janeiro e está em fase de montagem e finalização.