Correio da Manhã
Cinema

'Desde o útero de minha mãe eu vou ao cinema'

'Desde o útero de minha mãe eu vou ao cinema'

Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã

Ao escalar quem receberia homenagens em sua 23ª edição, iniciada na segunda, o Festival de Cinema de Cuiabá - Cinemato, que segue até 5 de julho, escalou um paranaense que adotou o Mato Grosso como lar e como espaço de invenção para um cinema brasileiríssimo. Amauri Tangará virou lenda quando "Pobre É Quem Não Tem Jipe" ultrapassou as fronteiras de seu estado e correu por olhos em longínquas latitudes. Ao longo de quatro décadas de carreira, ele rodou longas, curtas e séries, ministrou oficinas de formação essenciais para a consolidação do audiovisual mato-grossense e encenou peças. Não bastasse isso tudo, e um talento que não se questiona para construir painéis humanistas sobre a potência da natureza, Tangará tem um passado de lutas que é um exemplo, com uma cruzada pessoal de amor pelo cinema que ele compartilhou com o Correio da Manhã.

Sua trajetória de expressões autorais ganha uma justa ribalta num CINEMATO cujo tema é "Migração - Mobilidade Humana e Mudanças Climáticas", salpicado ao longo de 67 filmes de 17 estados brasileiros. Entre eles, sete longas disputam o tradicional Troféu Coxiponé na Mostra Competitiva: "Eclipse" (SP), thriller dirigido e protagonizado por Djin Sganzerla, "Dentre Nordeste e Sudeste" (SP), de Andrea Mendonça, "Filhas da Noite" (PE), de Henrique Arruda e Sylara Silvério, Perto do Sol é Mais Claro" (RJ), de Régis Faria ; "Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky" (AM), de Jorge Bodanzky e Liliane Maia, "Cinco Tipos de Medo" (MT), de Bruno Bini, e "Memória de Elefante" (MT), de Severino Neto.

Na conversa a seguir, Tangará dimensiona a força da cinefilia.

De que maneira "A Oitava Cor do Arco-Íris" demarca a linha poética que desenha o seu cinema e a sua geografia?

Amauri Tangará - Esse foi meu primeiro longa-metragem, filmado em 2002 e finalizado em 2004. Até hoje, quando eu o revejo me emociono muito. Eu vinha de um mergulho no cinema iraniano de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Mohsen e Samira Makhmalbaf e Majid Majidi. Isso me deu um desejo enorme que fazer um filme onde a poesia, a ternura e a coragem fossem a linha mestra da história.

O Guimarães Rosa que faz parte da sua dramaturgia, por meio da peça "Rosa Pantaneira" ainda se faz presente na sua construção de linguagem?

Sempre fui apaixonado por literatura, principalmente as que tratam dos sertões profundos, como a obra de Guimarães Rosa e de Ricardo Guilherme Dick, dentre outros, como também as obras de Eduardo Galeano, Gabriel García Márquez, Saramago e tantos outros... É claro que você acaba sempre contaminado por essas narrativas e espero que essa contaminação prossiga por todo o sempre em minha obra.

De que maneira Mato Grosso virou lar e objeto poético no seu cinema?

Cheguei em Mato Grosso em 1970 e fui morar na zona rural de Tangará da Serra. Já vinha contaminado por cinema, pois nasci numa família sertaneja, cujo pai era apaixonado por circo e minha mãe por cinema. Minha mãe, ainda no Paraná, não perdia filmes do Mazzaropi, do Oscarito e do Grande Otelo. Grávida de mim, ela ia para a cidade de carroça ou em lombo de burros para assistir a um filme no pequeno cinema que existia na cidade de Paranavái. Desde o útero de minha mãe eu vou ao cinema... Quando em Tangará, nos anos de 1970, inaugurou o primeiro cinema, o cine Alvorada, passou o filme da Copa do Mundo em que o Brasil foi tri campeão e eu não assisti, porque não tinha dinheiro pra pagar o ingresso. Nesse dia, eu prometi a mim mesmo, que um dia ia mostrar um filme meu num cinema da cidade. Passaram-se 17 anos e, em 1997, já vivendo em Cuiabá, fui lá mostrar meu primeiro filme, o média-metragem "Pobre É Quem Não Tem Jipe!".

Sua obra é pautada por uma delicadeza na construção de planos que ressalta os vetores da Natureza ao teu redor. Que ficções e documentários demarcam essa sua construção narrativa? Que influências te formam?

Eu sempre fui muito ligado a questões ambientais, até pelo fato de ser filho de camponeses. Na década de 1980, participei como ator de diversos filmes ambientados no Pantanal, entre eles "Curral Das Águas", de Gloria Albuês. Realizei diversos vídeos enfatizando as belezas e as tradições do interior de Mato Grosso. Tudo isso me inspirou a ter sempre em minha obra uma narrativa que enfatiza esses ambientes. Meu segundo longa, "Ao Sul De Setembro", foi realizado na Chapada dos Guimarães, em 2004.

De que forma o Centro-Oeste hoje se reinventa na tela?

A forma que temos é não querer imitar o cinema que fazem nos grandes centros. Temos paisagens, histórias e povos de uma riqueza exuberante e temos que trazê-los para nossas telas. Não podemos nunca aceitar a alcunha de "cinema regional" e sempre enfatizar que fazemos cinema brasileiro em Mato Grosso, no Centro-Oeste.

Quais são os seus próximos planos, filmes e sonhos?

Tenho nove longas-metragens prontos para serem realizados e gostaria muito que os veículos de comunicação, principalmente as nossas TVs, abrissem espaço para que possamos mostrar nossas obras. Mato Grosso, hoje, tem uma intensa e ótima produção audiovisual que não chega ao nosso público, infelizmente!