Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Predicados de diva, Cristina Aché tem aos montes: da beleza digna de Helena de Troia ao modo inquieto de investigar as inquietações existenciais ligadas à força feminina. Logo que apareceu, despontando na telona, no início da década de 1970, virou musa. Só que rótulos achatam quem tem grandeza. E Cristina é grande... das nossas maiores atrizes. Espécie de Monica Vitti dos trópicos, ela refutou taxonomias, abriu mão dos adjetivos mais imediatistas. Estudou e buscou novas veredas. Mas deixou sua marca. Basta ver qualquer um dos títulos reunidos pela Caixa Cultural do Rio de Janeiro, sob a curadoria de Rogerio Cavalcante e Castro e produção de Talles Reis, para a retrospectiva de Aché que começa nesta terça-feira, para perceber como o talento dela salta aos olhos, num modo de atuar delicado e reflexivo.
O evento, que vai até 26 de julho de 2026, foi atrás dos 24 filmes que ela rodou de 1973 a 2008, antes de se desligar do cinema e zarpar para uma vida de artesania, trabalhando com tecidos na Região Serrana. A lista de longas em projeção na Caixa traz blockbusters ("Os Sete Gatinhos"), cults que foram aplaudidos em Cannes ("Chuvas de Verão") e pérolas de seiva modernista ("O Homem do Pau-Brasil"), ressaltando parcerias com realizadoras/es de alto quilate inventivo. Quase todo dia da retrospectiva tem um bate-papo com artistas de prestígio. Na abertura, neste 30 de junho, ela e o cineasta Bruno Barreto revisitam "Amor Bandido" (1979), um thriller on the rocks.
No papo a seguir, Cristina dimensiona ao Correio da Manhã o que significa reviver uma estrada de tantos acertos e de tanta encantaria.
Sua filmografia impressiona pela qualidade de bons filmes e também pela diversidade das personagens que você encarnou. Como é que as suas escolhas profissionais foram feitas? O quão consciente foi esse percurso artístico que, como a mostra comprava, é notável?
Cristina Aché - Acho que nada acontece por uma razão só, até porque eu sempre fui uma pessoa muito crítica. Eu tive o privilégio de poder escolher muitas coisas boas porque, quando comecei, não existia essa quantidade de jovens atrizes que existe hoje. Não tinha tanta gente querendo botar a cara na tela. Também tive a sorte de me aproximar cedo de cineastas muito importantes e de conviver com gente extremamente talentosa. A gente só consegue enxergar uma trajetória depois que ela já aconteceu.
Em que momento dessa trajetória bateu aquela certeza "agora eu sou uma atriz"?
Depois do meu primeiro filme. Eu ainda era estudante e não me considerava atriz. Quando fui chamada para fazer o segundo, percebi que precisava estudar. Comecei a fazer cursos e me aproximei do teatro. Logo fui encontrando pessoas fundamentais na minha formação. Tive muita sorte nesse sentido.
Joaquim Pedro de Andrade teve um papel decisivo nessa formação?
Sem dúvida. Fiz três filmes com ele, vivi nove anos ao seu lado e tivemos dois filhos. Nossa casa era um lugar de encontro de pessoas que discutiam cultura, política e cinema brasileiro. Glauber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor e tantos outros passavam por lá. Era um ambiente muito rico intelectualmente.
Por que você se afastou da atuação?
Foram várias razões. Houve um período em que o cinema brasileiro passou por muitas transformações e surgiu uma estética mais ligada à televisão, um espaço em que eu nunca me encaixei totalmente. Ao mesmo tempo, fui aprofundando meu interesse pelo teatro e, mais tarde, vivi uma experiência muito importante na França, trabalhando com o Théâtre du Soleil. Quando voltei ao Brasil, não me via entrando numa dinâmica de disputar espaço na televisão ou passar a vida tentando aprovar projetos em editais. Acabei encontrando outro caminho artístico. Há uns quinze anos trabalho com tecidos artesanais, com shibori (técnica japonesa de tingimento). Isso acabou se tornando um meio de ganhar a vida e uma fonte enorme de realização pessoal. Construí uma vida muito feliz em torno desse trabalho.
Mas a vontade de atuar continua existindo?
Continua. Em determinado momento comecei até a me preparar para voltar. Procurei agentes, gravei material, comecei a me movimentar. Quando estava pronta para dar esse passo, veio a pandemia e interrompeu tudo. Agora, com essa mostra, essa vontade reapareceu com força. E hoje é uma vontade diferente. Não existe mais aquela preocupação com juventude ou aparência. Gostaria de interpretar mulheres da minha idade, personagens que tenham histórias interessantes para contar.
Ao rever seus filmes, chama atenção a quantidade de mulheres diferentes que você interpretou, todas com muita potência. Que imagem do feminino perpassa seu trabalho?
Sinto que essas mulheres todas que eu interpretei refletem tanto os diretores com quem trabalhei quanto aspectos meus. Essa é a beleza da atuação. Você vive alguém que não é você, mas empresta parte de si para aquela personagem. Ao mesmo tempo, recebe muito dela. Talvez essa diversidade tenha relação com uma característica minha. Sempre fui muito curiosa em relação às pessoas e às experiências humanas. Consigo transitar por universos muito diferentes sem dificuldade. Isso certamente aparece nessas personagens.
O que mais aprendeu trabalhando com cineastas de alto quilate como Cacá Diegues, Joaquim Pedro, Lúcia Murat, Neville d'Almeida, Bruno Barreto?
Aprendi observando. Muitas vezes percebia que estava diante de algo especial. O Bruno, por exemplo, tinha uma clareza impressionante sobre o filme que queria fazer. O Lauro Escorel, diretor de fotografia de "Amor Bandido", trabalhava com um rigor técnico extraordinário. Também aprendi muito com atores veteranos. Elza Gomes, Paulo Gracindo e tantos outros eram verdadeiras escolas. Quando percebiam que você tinha potencial, ajudavam a empurrar seu trabalho para frente. Agora, com essa mostra, aos poucos vou entendendo o significado disso tudo. Existe uma frase que ouvi de uma professora, a Glorinha Beuttenmüller, grande preparadora vocal, que nunca esqueci. Ela disse: "é preciso saber o próprio tamanho, nem maior nem menor". Essa homenagem me permitiu olhar para minha trajetória com mais equilíbrio. Sem me colocar acima do que sou, mas também sem diminuir o que fiz. Afinal, construí uma carreira importante. Fiz 24 filmes. Confesso que nem eu tinha noção exata desse número.
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