Completam-se 50 anos do roteiro mais famoso que Eduardo Coutinho (1933-2014) escreveu ao longo de uma carreira paralela ao trabalho como documentarista: o script (assinado também por Leopoldo Serran) de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976). O filme arrastou 10,7 milhões de pagantes às salas de exibição, sob a direção de Bruno Barreto, e pode ser visto na plataforma MUBI. Não se fala dele e nem se menciona essa efeméride, tampouco o trabalho (raro) do diretor de “Jogo de Cena” (2007) com a ficção em “Habitar o Tempo”, curta-metragem com que a diretora Cristiana Grumbach estilhaçou os corações da 21ª CineOP, em Ouro Preto, na tarde deste sábado. Ha mais saudade do que informação no filme de 15 minutos dirigido (na chave da doçura) pela realizadora de “Morro da Conceição” (2005) a partir do resgate dos registros de um encontro com o artesão do real, de quem foi amiga e colaboradora. A sinopse dela até parece poesia (mas seu filme, também): “Lua cheia de maio. Seis amigos. Dois poemas. Uma noite, há 23 anos”.
Num evento que celebra a memória e faz da linguagem documental o pavimento de sua programação (e de suas reflexões), como é a CineOP, a produção de Cristiana é uma pedra preciosa à altura dos minérios no solo daquele aurífero perímetro das Gerais. E o é sobretudo por celebrar um autor cinematográfico famoso por uma Comédia Humana pautada pela palavra e pela escuta, com títulos como “Edifício Master” (2002) em sua filmografia.
Vemos metonímias de Coutinho salpicando a narrativa de “Habitar o Tempo” numa leitura coletiva de poemas de João Cabral de Melo Netto (1920-1999). Cristiana Grumbach também se faz ver entre esses recortes, assim como outras figuras ligadas às artes e às Ciências Sociais, como Renata Baldi, Eliska Altman, Geraldo Pereira e Fernando Fragozo. Cada qual lê um verso, ou mais de um... Cada verso traz uma prerrogativa suicida ou analgésica sobre o amor. Estrofe a estrofe, minuto a minuto, um mosaico de sensações forma um colosso sinestésico de catarse e de busca, deflagrando recordações... as de Cristiana e as de quem viu Coutinho em seu devir Paracelso de transformar o chumbo da vida em ouro documental. Há poucos dias, seu longa de maior fama, “Cabra Marcado Para Morrer” (1984), passou pela Austrália, no Festival de Sydney, numa retrospectiva estruturada por Kleber Mendonça Filho, o aclamado diretor de “O Agente Secreto” (2025), sobre brasilidades.
Outro dos deslumbres da seleção de curtas da CineOP 2026 é a viagem que Cavi Borges e Christian Caselli fizeram pelo legado vivo e ativo da atriz e diretora Helena Ignez no ensaio “Helena! Cinema!”, que conta com a voz melíflua de Patrícia Niedermeier para representar os fluxos de pensamento e de inquietude da estrela de “A Mulher de Todos” (1969). É um retrato afetivo que foge das imagens mais repetidas que costumam circundar os merecidos tributos a essa multiartista da Bahia. Caselli, que é um dos montadores mais engenhosos do país, funde biopic (épico biográfico) com estéticas do Cinema de Invenção construindo sequências que mais parecem haicais. É um poema sobre uma musa de muitas gerações e de muitas artes, entre o palco de Brecht e o audiovisual de Rogério Sganzerla (1946-2004), seu companheiro de um tudo.
Dos muitos momentos que vão eternizar esta CineOP, poucos carregam uma centelha de luta contra opressões históricas tão forte quanto o discurso de Benedita da Silva resgatado por “Eunice Gutman Tem Histórias”, trova filmada que Lucas Vasconcellos fez. Seu foco está na realizadora que é ícone do feminismo em nossas telas. Com linha de cetim, o cineasta alinhava imagens preciosas dos .docs que fizeram de Eunice uma referência, ainda ativa.
Esta noite, a praça de Ouro Preto vai conferir “Vivo 76”, de Lírio Ferreira, sobre Alceu Valença e seu disco homônimo. A maratona mineira termina na terça-feira.
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