Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Tem uma terça-feira toda a dispor da CineOP, mas vai ser difícil o evento mineiro registrar, nas próximas horas, comoção à altura do que se testemunhou na última sexta-feira, com a projeção ao ar livre, na praça de Ouro Preto (MG), da cópia restaurada de "Ó Ébrio". Foi uma celebração dos 80 anos do que periga ser a maior bilheteria do nosso cinema em todos os tempos. Duas décadas atrás, quando a produtora Alice Gonzaga, herdeira da Cinédia, a companhia cinematográfica por trás desse melodrama realistas de eixos musicais, prensou sua versão em DVD, a cifra estimada de seu sucesso era de oito milhões de ingressos vendidos.
Hoje já há estudiosos que falam em 12,5 milhões, número que supera o atual titular do pódio de arrecadação no país, a biopic "Nada a Perder" (2018), que vendeu 12,1 milhão de tíquetes à força de uma ação feita pela Igreja Universal de distribuir bilhetes entre os seus fiéis. Pesquisadores de verve crítica assumem como o atual recordista de lotação de salas exibidoras "Minha Mãe É Uma Peça 3", com seus 11,6 milhões de pagantes acumulados à luz da graça de Paulo Gustavo (1978-2021), de 2019 até março de 2020 - isso enquanto os números de "O Ébrio" não saem do âmbito do mistério.
A atual lista de filmes brasileiros com mais de um milhão espectadores nos cinemas do Brasil data de 1970 para cá, e foi feita de acordo com um estudo da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) e do portal Filme B. A falta de informações precisas sobre os filmes lançados antes da criação da Embrafilme (produtora e distribuidora estatal de economia mista), aberta em 1969 e encerrada em 1990, torna difícil determinar o público de notórios sucessos das décadas de 1900 a 1960, quando apareceram "O Ébrio", o nordestern "O Cangaceiro" (1953), e a maioria das comédias com Amácio Mazzaropi (1912-1981).
Hoje, nesse levantamento da Ancine, o corte para as telas da novela da Record "Os Dez Mandamentos", de 2014, ocupa o terceiro lugar, com 11,3 milhões de tíquetes vendidos. Em quarto lugar, aparece o Capitão Nascimento em "Tropa de Elite 2" (2010), com 11,1 milhões. O quinto posto é de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), com 10,7 milhões. Nosso ganhador do Oscar, "Ainda Estou Aqui" (2024), ficou com a décima posição, depois de vender 5,8 milhões de bilhetes.
No caso de "O Ébrio", um dos complicadores da conta é o fato de muitas de suas projeções terem ocorrido em feiras e em quermesses, onde era difícil contabilizar o tanto de gente que se chegava para ver (e, sobretudo, pra ouvir) Vicente Celestino (1894-1968), o astro da trama. A direção era de sua companheira de vida, a atriz e diretora Gilda de Abreu (1904-1979), que foi o grande amor da ave canora cujo canto parecia os dos tenores de ópera.
Encampado pela Cinédia com produção de Adhemar Gonzaga (1901-1978), "O Ébrio" é considerado o primeiro longa-metragem sonoro brasileiro dirigido por uma mulher. Sua base foi o hit musical homônimo de 1936, onde Celestino cantava "Tornei-me um ébrio na bebida busco esquecer/ Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou"). A canção, cuja composição é atribuída a seu próprio intérprete, também inspirou uma peça de teatro (ainda em 1936) e uma novela de televisão (na TV Paulista, em 1965). Ela foi lançada no terceiro disco de Celestino na Victor, gravadora onde ele permaneceu por 33 anos, até sua morte, 1968. Em seu lançamento, a versão cinematográfica desse hino da sofrência quebrou, em diversas capitais do país, os recordes de ... E o Vento Levou (1939).
Na trama, que levou a CineOP à lágrimas, Celestino é o batalhador Gilberto Silva, estudante de Medicina do interior cujo pai perdeu tudo, deixando-o na miséria. Sem apoio, Gilberto abandonou os estudos e foi para a cidade grande, onde perambulou até conhecer o bondoso padre Simão, que abriu suas portas e o ajudou a procurar emprego. Com talento musical, o rapaz compôs a músoca "Porta Aberta" e se inscreveu num programa de calouros numa estação de rádio, graças ao qual ganhou notoriedade e algum dinheiro para terminar seu curso de medicina. Já bem repuado em sua profissão, conheceu sua futura esposa Marieta, enfermeira no hospital. Depois de alguns acontecimentos envolvendo familiares inescrupulosos e a perda da mulher, decide viver como um fantasma, afogando-se na bebida e vagabundagem. O ápice é a sequência em canta a sua derrocada.
Na projeção em Minas, a CineOP cantarolou com Celestino, nos créditos da versão restaurada. Antes, a cidade riu a valer com a presença, no elenco, de Walter D'Ávila (1911-1996) no papel de um primo dos mais interesseiros do Dr. Gilberto.
Entre os destaques mais contemporâneos vistos na CineOP, deatacam-se os curtas "Eunice Gutman Tem Histórias", de Lucas Vasconcellos, sobre uma cineasta de veia feminista incansável na produção de narrativas, e "Helena! Cinema!", de Cavi Borges e Christian Caselli, sobre a atriz Helena Ignez. Ao fim de suas atividades, esta tarde, a mostra de Ouro Preto vai exibir "Anistia 79", de Anita Leandro.
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