Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Pedro Almodóvar deu uma dica preciosa para seus 21 concorrentes na corrida pela Palma de Ouro de 2026, a ser entregue neste sábado à noite, pelo time de juradas/os liderado por Park Chan-wook: "Eu já fui tratado como favorito aqui duas vezes, com 'Volver' e 'Tudo Sobre Minha Mãe', e não ganhei, o que me deu uma vivência importante sobre festival. Numa dessas vezes, o presidente do júri era o cineasta David Cronenberg que justificou sua escolha dizendo que se o palmarês dependesse da especulação, não faria sentido haver colegiados julgando os filmes", disse o septuagenário artesão manchego, que dispara entre os nomes mais cotados a ganhar o troféu dado ao iraniano Jafar Panahi em 2025.
Seu "Natal Amargo", marcado para estrear no Brasil na próxima semana, sublinha toda a potência estética do "almodrama" ao tocar num dos temas mais debatidos neste Cannes: a metalinguagem. Há um filme dentro do longa que Almodóvar nos apresenta a partir da crise criativa que leva o diretor Raúl (Leonardo Sbaraglia) a fazer da vida de uma amiga matéria de um novo projeto. Paralelamente, uma publicitária famosa por filmes autorais, Elsa (Bárbara Lennie, em atuação estonteante), dá um rumo diferente à sua vida artística depois de perder a mãe. Essa perda nos é narrada num fluxo cromático de acachapar o olhar, embalado na trilha sonora mais majestosa de Alberto Iglesias, o habitual trilheiro dos almodramas.
Se o Manchego celebrado por "Fale Com Ela" (2002) e outras joias ganhar, em sua sétima vez no certame de Cannes, um sucesso de público instantâneo há de surgir. Seria um acerto pro festival francês, que se indispôs com o mais forte dos streamings, a Netflix, em 2017, ano em que o próprio Almodóvar presidia o júri, e declarou ser contra dar a Palma a um longa que não tivesse o cinema como sua janela central. A postura dele, corajosa, fez com que o diretor artístico da Croisette, Thierry Frémaux, abraçasse a causa de preservar a primazia da tela grande. O tal abraço transparesse na aposta em títulos com fôlego de espetáculo, em especial "Moulin".
Lászlo Nemes, da Hungria, famoso por "O Filho de Saul" (2015), dirige o épico contagiante sobre Jean Moulin, funcionário público francês que se tornou uma das figuras centrais da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Prefeito de Chartres no início da ocupação alemã, Moulin recusou colaborar com os nazists e acabou por ser recrutado por Charles de Gaulle para unificar os diferentes movimentos clandestinos de sua pátria ocupada, desempenhando um papel decisivo na criação do Conseil National de la Résistance. Em 1943, foi preso pela Gestapo em Caluire, perto de Lyon, provavelmente após ter sido traído, sendo submetido a sucessivas sessões de tortura conduzidas pelo carrasco Klaus Barbie (1913-1991), esplendidamente vivido por Lars Eidinger. Gilles Lellouche, recordista de público na França, como ator e como diretor, vive Moulin, na atuação de uma vida.
Igualmente viva - nas raias da genialidade - é a forma de Javier Bardem atuar no devastador "El Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyan. Ele interpreta Esteban Martínez, um diretor de cinema dos mais premiados - e dos mais iracundos - que dá à sua filha, Emilia (Victoria Luengo), o papel central de seu novo projeto. Será um desafio, nesse set, o fato de os dois terem um vasto passivo de mágoas a ser quitado.
Poderosa ainda é a forma de atuar de Sebastian Stan (o Soldado Invernal da Marvel) em "Fjord", que pode dar ao romeno Cristian Mungiu os prêmios de Roteiro e de Direção. Alegoria política mais explosiva de Cannes, o novo aríete autoral do diretor de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" (Palma de 2007) fala de um casal (Stan e Renate Reinsve) que pode perder a guarda dos filhos por uma errônea supeita de violência doméstica.
No quesito "filmar bem", Mungiu só perde para Na Hong-jin, que concorre com a sci-fi "Hope", um "filme de monstro", com aliens do espaço sideral. O cineasta sul-coreano desafia as leis da física em suas tomadas de ação, dignas de "John Wick".
Duas realizadoras vão encerrar a seleção oficial de 22 concorrentes à Palma de Ouro de 2026 na tarde desta sexta: Léa Mysius, da França, exibe "Histoires de la Nuit", e Valeska Grisebach, da Alemanha, com "The Dreamed Adventure". Das diretoras em concurso por esta Palma, Jeanne Herry emplacou um golaço em seu trabalho com Adèle Exarchopoulos. Ela tem um desempenho de tirar aplausos minuto após minuto em "Garance", no qual vive uma atriz em luta contra o alcoolismo.
Na competição paralela Un Certain Regard, há uma forte chance de vitória pra brasilidade, que vem da presença das produtoras Bubbles Project (de Tatiana Leite) e Enquadramento Produções (Leonardo Mecchi) como parceiras do longa-metragem "Elefantes na Névoa", do nepalês Abinash Bikram Shah. A França, a Noruega e a Alemanha são suas coprodutoras também. Essa belíssima saga de afirmação de identidade se passa em um vilarejo no Nepal, narrando o dilema de um líder comunitário cuja filha sumiu. Sua montagem valoriza as dores internas dos personagens em planos que convidam a imersões existencialistas nas almas em cena.
Até sábado será sabido o ganhador da láurea de júri popular da Quinzena de Cannes, de onde o Brasil pode sair laureado por "La Perra", da chilena Dominga Sotomayor, que conta com Selton Mello no elenco.