79º Festival de Cannes

'La Bola Negra' vira a torcida de Cannes em prol da Espanha da Lorca

'La Bola Negra' vira a torcida de Cannes em prol da Espanha da Lorca
O ator de um nome só, Guitarricadelafuente, estrela La Bola Negra Crédito: Divulgação

Nos 45 minutos do segundo tempo da partida regulamentar pela Palma de Ouro de 2026, o Festival de Cannes foi atropelado por um trem-bala da Espanha: “La Bola Negra”, de Javier Ambrossi e Javier Calvo. O “já ganhou!” em torno desse épico queer que aravessa o século XX, até chegar a 2017, espalhou-se pela Croisette como uma coqueluche. Participações breves, mas luminosas, de Penélope Cruz e de Glenn Close ampliam a popularidade de uma produção que revisita a Guerra Civil Espanhola e o trauma do franquismo (1937-1975) sempre de olho na homofobia e no silenciamento de amores homoafetivos. É o terceiro longa ibérico em concurso este ano, antecedido por dois compatriotas colossais: “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen, e “Natal Amargo”, de Pedro Almodóvar. São altas as chances de um dos três ser escolhido para levar a Palma para Madri, sendo que só uma vez, em 78 anos, o mais valioso troféu cannoise foi para um espanhol: “Viridiana” (1961), de Luis Buñuel (1900-1983).


Inspirado pelo universo poético de Federico García Lorca, assassinado em 1936 por forças ligadas ao regime espanhol, o filme acompanha três histórias gays ambientadas em épocas diferentes, conectadas pela morte de um avô misterioso. Um jovem recebe a notícia desse falecimento e inicia uma jornada emocional que revisita gerações pregressas, encontrando vestígios de violência, desejo reprimido e tensões familiares herdados ao longo de um século. A presença simbólica de Lorca acompanha toda a narrativa, como uma espécie de fantasma político e afetivo que costura os personagens.

Em cada núcleo dramático, homens gays enfrentam repressão, silenciamento e abandono, mas também descobrem formas de afeto e resistência. A fotografia febril de Gris Jordana reforça essa atmosfera de luto permanente, produzindo analogias com referências pictóricas que vão de Goya a Picasso.

Neste sábado, o júri presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook decide os destinos de Calvo e Ambrossi. O longa com mais potência para desafiar a esquadra da Espanha é "Fiórde" ("Fjord"), do romeno Cristian Mungiu. Na trama, Sebastian Stan (o Soldado Invernal da Marvel) encarna um devastador torvelinho de batalhas de tribunal. O engenheiro vivido por Stan, o imigrante da Romênia Mihai Gheorghiu, e sua mulher, Lisbet (Renate Reinsve), correm o risco de perder a guarda de sua filharada depois que o Conselho Tutelar da Noruega, onde vivem, cisma que eles agridem seus rebentos.