Entrevista – Anja Unger, presidente da Société Civile des Auteurs Multimédia (SCAM)
Anja Unger tem um almoço com o real agendado para as 12h desta sexta. A Société Civile des Auteurs Multimédia (SCAM), presidida por ela, vai estar no Palais des Festivals, ao meio-dia do 22 de maio, véspera do encerramento da 79ª edição da maratona cinéfila da Cannes, a fim de revelar o ganhador do troféu L’Oeil d’Or de 2026. O Olho de Ouro, na tradução literal, é a Palma dos Documentários. Ela foi criada em 2015 e, no ano seguinte, o Brasil trouxe uma para casa, à luz de “Cinema Novo”, de Eryk Rocha.
A lista de concorrentes de 2026 é farta, em quantidade e qualidade de vozes autorais. A lista de concorrentes traz:
“Avedon”, de Ron Howard (Estados Unidos); “Cantona”, de David Tryhorn e Ben Nicholas (Reino Unido); “Groundswell”, de Joshua Tickell e Rebecca Tickell (Estados Unidos); “John Lennon: The Last Interview”, de Steven Soderbergh (Estados Unidos); “Les survivants du Che”, de Christophe Dimitri Reveille (França); “Rehearsals for a Revolution”, de Pegah Ahangarani (Chéquia/Espanha); “The Match”, de Juan Cabral e Santiago Franco (Argentina); “Une vie manifeste”, de Jean-Gabriel Périot (França); “The Story of Documentary Film”, de Mark Cousins (Reino Unido); “Dernsie: The Amazing Life of Bruce Dern”, de Mike Mendez (Estados Unidos); “Maverick: The Epic Adventures of David Lean”, de Barnaby Thompson (Reino Unido/Estados Unidos); “Vittorio De Sica – La vita in scena”, de Francesco Zippel (Itália); “Nostalgia for the Future”, de Brecht Debackere (Bélgica); “Tin Castle”, de Alexander Murphy (Irlanda/França); “Gabin”, de Maxence Voiseux (França/Alemanha/Suíça); “Merci d’être venu”, de Alain Cavalier (França); “Once Upon a Time in Harlem”, de William Greaves e David Greaves (Estados Unidos); “Cur Secret”, de Tom Fontenille (França); “Dans la gueule de l’ogre”, de Mahsa Karampour (França); “La Détention”, de Guillaume Massart (França); “Virages”, de Celine Carridroit e Aline Suter (Suíça/França).
No papo a seguir, Anja explica as dimensões que o L’Oeil d’Or tem contra miopias culturais.
De que forma a criação do L'Oeil d'Or, em 2015, mudou a maneira como as narrativas documentais são percebidas e recebidas em Cannes?
Anja Unger: O cinema documental ocupa hoje um lugar importante em Cannes, tanto no festival em si quanto no Mercado de Cinema. No Marché, há o CannesDoc, com toda uma programação de mesas redondas dedicadas ao tema, sessões de pitch, o DocDay... Os profissionais do setor de documentário identificaram o Festival de Cannes como um encontro essencial para a profissão. O aumento da frequência deles atesta isso. Cannes é um lugar único no mundo para o cinema, em primeiro lugar pela valorização dos filmes, mas também pelas incríveis oportunidades de encontros com parceiros vindos de todo o mundo. Isso vale para todos os gêneros cinematográficos, incluindo o cinema documental. Este ano, a safra de filmes é rica: o júri do Oeil d’Or tem 21 obras para assistir, com base na grade das diferentes seções do evento.
De que forma esse prêmio ampliou a noção estética da palavra “real”?
Anja Unger: Não se pode esquecer que o cinema começou como documentário! Desde sempre, os cineastas documentaristas souberam filmar o real com criatividade. O cinema documental é uma forma de arte e, nessa qualidade, toca nosso coração, mas também nossa mente. Às vezes, chega até a ser um soco no estômago. Você conhece a frase “A realidade supera a ficção”. Alguns filmes têm um impacto ainda mais forte quando sabemos que as imagens são captadas da realidade. O cinema como um todo se reinventa e se renova incessantemente. Isso talvez seja ainda mais visível no documentário. Documentaristas exploram novos gestos artísticos, novas gramáticas fílmicas do real. Sentimos isso nos filmes. É algo poderoso. Será porque o “real” está cada vez mais complexo, incompreensível, fragmentado? Seria preciso reunir filósofos para debater essa questão.
Como esse prêmio, ao longo desta década, prestou homenagem aos mestres da narrativa documental e deu voz a novos talentos?
Anja Unger: É importante ressaltar também que, todos os anos, o júri do Oeil d’Or é composto por grandes nomes do cinema documental. Este ano, o diretor ucraniano Mstyslav Chernov preside o júri e seu filme “20 days in Mariupol” recebeu um Oscar e o Prêmio Pulitzer.
De que forma esse prêmio ampliou a noção estética da palavra “real”?
Anja Unger: A melhor resposta a essa pergunta é dar uma olhada na lista de vencedores do L’Oeil d’Or e também nos membros dos júris que passaram por Cannes na última década. O ato de reunir todos os anos um grupo de pessoas talentosas, inteligentes e exigentes, em torno do cinema documental inevitavelmente vai honrar os mestres e também fazer surgir novos talentos. Além disso, o vencedor do Oeil d’Or é automaticamente pré-selecionado para o Oscar. Para citar alguns nomes de diretores e diretoras dos júris dos anos anteriores: Rithy Panh, Nicolas Philibert, Mstyslav Chernov, Gianfranco Rosi, Emmanuel Finkiel, Yolande Zauberman, Ross McElwee, Eric Caravaca, Ezra Edelman, Julie Bertuccelli, Agnieszka Holland, Carmen Castillo, Ovidie, Kirsten Johnson… aos quais se somam outras personalidades de renome (diretores de festivais, cinematecas, críticos de cinema, atores…).