Perdi um amigo no fim da semana passada. Um amigo que era a síntese do carioca: bom malandro, sambista, amante do futebol - era um notório tricolor - e um declarado praticante de uma das maiores virtudes de um ser humano: a solidariedade. Noca da Portela era tudo isso. Um gentleman que ajudou a encher a MPB de obras eternas, como "É Preciso Muito Amor", "Caciqueando" e "Alegria Continua". Isso sem contar sua trajetória gloriosa na Portela, onde se tornou, ao lado de David Corrêa, o maior vencedor de concursos de samba-enredo da história da escola.
Nos últimos dias, muitos textos tentaram resumir a dimensão do artista mineiro que escolheu o Rio como pátria afetiva. Eu prefiro lembrar do homem. Ou melhor: de uma das partes mais bonitas dele. A consciência política.
Sim, Noca era comunista. E dizia isso com o mesmo orgulho com que dizia ser portelense. Foi herança de seu pai: Ernesto Domingos de Araújo, o comunista Sabiá Num país onde tanta gente passa a vida escondendo convicções dentro da gaveta para não criar atrito, ele fazia questão de carregá-las no peito, como quem leva um estandarte.
Lembro de uma conversa que tivemos há alguns anos. Mais de quatro horas de papo numa churrascaria que existia perto da esquina da Estrada do Portela com a Rua Clara Nunes, em Madureira, endereço da azul e branco. Noca falava como se sambasse: sem pressa, sem pose e com uma musicalidade que parecia transformar até memória em partido-alto.
Foi ali que ele me contou, com um justo heroísmo na voz, sobre os tempos duros da ditadura militar no Brasil. Sobre estudantes perseguidos nos tempos do AI-5 que encontravam abrigo na sua casa, no Morro do Tuiuti, em São Cristóvão. Enquanto os generais tentavam transformar o país numa imensa sala de silêncio, sambistas como Noca mantinham acesa a luz miúda da solidariedade. Era o Brasil profundo resistindo do jeito que sabia: abrindo a porta, servindo comida, oferecendo proteção.
Talvez porque ele soubesse que o samba nunca foi apenas festa. O samba também é trincheira.
Essa consciência política atravessou sua obra inteira. Está em "Virada", eternizada na voz de Beth Carvalho, quando o país começava a reaprender a sonhar com democracia: "Vamos lá, rapaziada / Tá na hora da virada / Vamos dar o troco". Em tempo: os direitos de execução desta canção foram cedidos ao PMDB na figura de Ulysses Guimarães.
Está também em "Não Me Venha com Indiretas", espécie de crônica cantada de um Brasil cansado de atalhos autoritários e sedento pelo direito de escolher o próprio destino. "Se segura, meu irmão / Que o negócio é uma direta / A meta é a eleição".
Os comícios das Diretas Já tinham discursos inflamados, bandeiras erguidas e líderes históricos. Mas tinham também pandeiro e tamborim. Tinham povo cantando samba em forma de oração pela redemocratização.
E talvez esteja aí a beleza maior de Noca. Ele nunca transformou sua militância em personagem. Era simplesmente coerente. Filho de um homem que lhe deixou duas heranças inseparáveis - o samba e a convicção comunista -, viveu como quem entendia que arte sem humanidade é só barulho bem arrumado.
Sua partida deixou o Rio um pouco mais silencioso. Como se algum surdo tivesse parado de marcar o tempo da cidade. Mas gosto de pensar que homens como Noca não vão embora completamente. Ficam pairando por aí, nas esquinas de Madureira, nos botequins de Botafogo, nas rodas de samba e nas pequenas gentilezas anônimas.
Porque existem pessoas que passam pela vida. E existem pessoas que ajudam um país a ter alma. Uma delas foi Osvaldo Alves Pereira, o eterno Noca da Portela.