Cinema

Uns chamam amor... outros chamam de conexão

Concorrente dos mais fortes ao Prix Un Certain Regard, 'All The Lovers In The Night', da diretora Sode Yukiko, redesenha os códigos do romantismo

Uns chamam amor... outros chamam de conexão

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

ENo dia em que o drama nipônico "All The Lovers In The Night" levou o Palais des Festivals de Cannes a se engatar, em coro, naquele brado de "Ownnnn!!!", em sinal de forfura, seu astro mais famoso, Tanadobu Asano, celebrou o êxito comercial de sua mais recente investida em Hollywood: "Mortal Kombat 2". Ele é o Lorde Rayden, o Senhor dos Relâmpagos, na versão pra telona do videogame dos anos 1990. Brincou com o Correio da Manhã, na Croisette, ao evocar a expressão nerd "Fatality", tipica desse jogo pop.

Mas o trabalho que o traz à maratona cinéfila da França não parece dar vez a "game over", pelo menos não no coração da plateia. A direção impecável da cineasta japonesa Sode Yukiko é o pavimento de lirismo de uma quase "love story", em disputa na seção paralela Un Certain Regard.

"A forma como eu vejo as relações amorosas não tem lugar para perdas de individualidades. Se eu tenho duas pessoas, eu tenho duas singularidades e quero que ambas possam correr livres, sem depender uma da outra, com respeito ao espaço alheio", diz Sode Yukiko ao Correio, ao lado de Tadanobu e da atriz Yukino Kishii.

Sua estrela celebrava a forte presenta do Japão em Cannes, em 2026: "Eu ouço falar deste festival desde antes de começar a trabalhar com cinema".

Na trama de "All The Lovers In The Night", a revisora Fuyuko (papel de Yukino) gosta de andar pelas ruas de sua cidade, ali por volta das 0h, cada vez que aniversaria. Um dia, ela tromba com o professor Mitsutsuka (Tadanobu) e passa a ter encontros regulares com ele, até que segredoa se deixam notar.

"Quando eu descobri a obra do (já finado) diretor Edward Yang (de 'As Coisas Simples da Vida'), eu encontrei um retrato delicado da sociedade de Taiwan, mas essa mirada sempre vinha por meio de uma observação de trocas entre indivíduos. O ponto da obra dele era gente. O meu também, ainda que elementos culturais do Japão e marcadores do melodrama apareçam nesse meu filme", diz Sode. "Eu sigo os desejos de Fuyuko e Mitsutsuka e acompanho os sentimetos deles antes de me ater a qualquer parâmetro da nossa sociedade".

A premiacão da mostra Un Certain Regard será anunciada nesta sexta-feira.