Cinema

É tudo verdade... na Croisette

Produções sobre futebol, retrato de um Beatle levado pela violência e filmes sobre filmes fazem do troféu L'Oeil d'Or uma zona franca para o real na Côté d'Azur

É tudo verdade...
na Croisette

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Hoje com 63 anos, Steven Soderbergh tem tudo para repetir neste Festival de Cannes um feito que o consagrou em 1989, na flor de suas 26 primaveras - e na flor de sua estreia em longas: seu nome se destaca como favorito a um dos troféus mais disputados da Croisette. Não é a Palma de Ouro - láurea que ele venceu no fim da década de 1980, com "sexo, mentiras e videotape" -, mas, sim, o L'Oeil d'Or. Esse é o nome da Palma dedicada só aos documentários. Ela surgiu em 2015 e, em seu segundo ano, teve o Brasil como vencedor: o vulcão sensorial "Cinema Novo", de Eryk Rocha, laureado em 2016. Soderbergh se impõe agora na disputa de maior devoção ao real da maratona francesa com "John Lennon: The Last Interview".

Nela, encontram-se resquícios da derradeira conversacão de Lennon, antes de seu assassinato, em 8 de dezembro de 1980. A gravação do LP "Double Fantasy" é o mote de um papo para uma rádio que, agora, 46 anos depois, serve como pavimento para uma reinvenção dos códigos da estética de arquivo nas telas. É um retrato de Lennon por ele mesmo.

Além de Soderbergh, um outro diretor campeão de bilheteria de Hollywood busca o Olho de Ouro de Cannes: Ron Howard. O ganhador do Oscar de Melhor Direção por "Uma Mente Brilhante" (2001) ataca vez por outra nas frajas documentais. Seu novo longa, "Avedon", é um estudo sobre um fotógrafo revolucionário. Com suas fotos, Richard Avedon (1923-2004) reeducou o padrão editorial de revistas como "Harper's Bazaar", "Vogue" e "Elle".

A América Latina bate um bolão na partida pelo L'Oeil d'Or com os passes de nuestros hermanos da Argentina, Juan Cabral e Santiago Franco, em "The Match". Os dois recriam uma partida histórica da Copa do Mundo de 1986. Outro goleador é "Maverick:The Epic Adventures of David Lean", que festeja o realizador de "Doutor Jivago" (1965).

A produção a vencer o L'Oeil d'Or de 2026 será conhecida nesta sexta, na véspera da entrega da Palma de Ouro. A cerimônia de ptemiação de .docs rola no Salon des Ambassadeurs do Palais des Festivals. Além do troféu, quem vence embolsa um cheque de 5.000 euros para gastar no lançamento. O diretor ucraniano Mstyslav Chernov preside o júri, tendo Tabitha Jackson, Géraldine Pailhas, Lina Soualem e Victor Castanet em seu time de juradas e jurados.

Desde a criação do L'Œil d'Or, há onze anos, seus vencedores foram "Allende, mi abuelo Allende", de Marcia Tambutti Allende (Chile/México), em 2015; o já citado "Cinema Novo", de Eryk Rocha (Brasil), em 2016; "Visages Villages", de Agnès Varda e JR (França), em 2017; "Samouni Road", de Stefano Savona (Itália), em 2018; ex aequo, "For Sama", de Waad Al-Kateab e Edward Watts (Síria/Reino Unido), e "La Cordillère des songes", de Patricio Guzmán (França/Chile), em 2019; "A Night of Knowing Nothing", de Payal Kapadia (Índia), em 2021; "All That Breathes", de Shaunak Sen (Índia), em 2022; ex aequo, "As Quatro Filhas de Olfa", de Kaouther Ben Hania (Tunísia/França/Alemanha), e "The Mother of All Lies", de Asmae El Moudir (Marrocos/Egito/Catar/Arábia Saudita), em 2023; ex aequo, "Ernest Cole: Achados e Perdidos", de Raoul Peck (França/Estados Unidos), e "The Brink of Dreams", de Nada Riyadh e Ayman El Amir (Egito/França/Dinamarca/Catar/Arábia Saudita), em 2024; e "Imago", de Déni Oumar Pitsaev (França/Bélgica), em 2025. É uma seleção rara de mestres com longo histórico de serviços prestados ao cinema e de novos talentos. Ou seja, é Cannes sendo Cannes.