Ao optar pela cartilha de debate-circo (definição divulgada pelo cientista político Antonio Lavareda) proposta por Pablo Marçal, Flávio Bolsonaro arrisca-se a ser mais uma vítima do coach que não vacila em colocar em risco a vida dos seduzidos por suas promessas de prosperidade.
Na ânsia de encontrar um jeito de enfrentar o presidente Lula (PT) no debate da Band, Flávio pareceu ter esquecido de sua vitória no primeiro turno e adotou uma receita adequada a candidatos nanicos, que precisam criar oportunidades cênicas e efeitos especiais para aparecer.
Foi o caso de Marçal na disputa da Prefeitura de São Paulo. Vestido com o uniforme do minúsculo PRTB, sem experiência política e tendo como trunfo apenas seu talento de vendedor de ilusões de prosperidade, ele meteu na cabeça a melancia da mentira e da agressividade para conquistar visibilidade nos debates: foi derrotado e ganhou uma cadeirada, inelegibilidade por oito anos e condenações por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
Ao abraçar o catecismo de Marçal, o candidato do PL à Presidência fez como os 32 iludidos que, em 2022, aceitaram o desafio proposto pelo empresário de encarar uma arriscadíssima escalada do Pico do Marins, em Piquete, São Paulo. Isso, sem guia, com rajadas de ventos de 100 km/h e visibilidade de até dez metros. Todos foram salvos pelos bombeiros.
No domingo retrasado, ele dobrou a aposta e levou outras três dezenas de fiéis para participar de um Ironman no Paraguai, prova de resistência que inclui natação, ciclismo e corrida. Muitos dos marçalistas não sabiam nadar; vários, entre eles, o próprio coach, precisaram ser socorridos e retirados do Rio Paraná.
Ao recorrer a Marçal, Flávio indicou duvidar da sua própria capacidade, buscou socorro de um picareta — presente na plateia da Band — que engana incautos com sua oratória de viés religioso, focada na constante busca da superação física e emocional supostamente protegida pelos Céus (na expedição suicida de Piquete, ele rogou a Deus que fizesse parar de ventar).
A lógica de Marçal e de tantos outros ilusionistas, inclusive religiosos, é simples: oferecer uma espécie de mapa do tesouro para aqueles que não têm capacidade, condições ou paciência para seguir o duro e nem sempre compensador caminho do trabalho.
Flávio caminhou na trilha indicada por seu guru: ignorou as perguntas, trocou o debate pelas provocações, abusou de intervenções gestuais indevidas nos momentos em que o adversário falava, optou pelo deboche, mostrou arrogância, atuou como um humorista que encena a sátira de um confronto entre dois candidatos à Presidência da República.
Seria temerário dizer que sua performance o levará à derrota, o resultado das urnas continua a ser imprevisível, mas, ao abraçar Marçal, Flávio parece, como os demais clientes do coach, ter tomado consciência de suas próprias limitações. Agora, busca saída em soluções mágicas que o façam voar em direção ao pico e caminhar sobre águas turbulentas.
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