Fernando Molica

Flávio e o querer sem querer

É como se o candidato do PL tivesse invertido a desculpa do Chaves - o personagem do seriado mexicano, aquela história do "sem querer querendo". Flávio vai fazer o que diz que agora quer, mas não quer.

Flávio e o querer sem querer
Flávio criticava o fim da escala 6x1 e mantém defesa da livre negociação de jornada Crédito: Divulgação

O apoio tardio de Flávio Bolsonaro (PL) ao fim da escala de trabalho seis por um entra na lista dos sapos que ele se viu obrigado a engolir na campanha. Pior, um anfíbio que, diferentemente da ida à missa e do carinho em boneca inspirada em Nossa Senhora Aparecida, quebra compromissos assumidos com poderosos apoiadores, representantes do tal mercado.

Ontem, ao tratar do tema, o vencedor do primeiro turno da eleição presidencial não conseguiu esconder seu constrangimento ao antecipar seu voto favorável ao que antes classificava de oportunismo do adversário, o presidente Lula (PT).

Mesmo ao admitir que a maioria dos trabalhadores é favorável ao regime cinco por dois, Flávio enalteceu as qualidades de outra proposta de emenda constitucional, apresentada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN) e que estabelece a livre negociação de horas trabalhadas entre patrões e empregados.

Deixou evidente que é contra o fim da da seis por um e que só vai dizer sim à PEC por medo das urnas. É como se tivesse invertido a desculpa do Chaves — o personagem do seriado mexicano interpretado por Roberto Bolaños —, aquela história do "sem querer querendo". Flávio vai fazer o que diz que agora quer, mas não quer.

O PL procurou sabotar a PEC por diversas vezes. Quando a proposta ainda estava na Câmara dos Deputados, o líder do partido, Sóstenes Cavalcanti, tentou apresentar emenda ainda mais generosa — e, por isso mesmo, inviável: criava a jornada de quatro dias de trabalho por três de descanso. Não colou.

No Senado, a resposta do partido de Flávio Bolsonaro foi a da PEC que garantiria ao trabalhador a prerrogativa de negociar horas de serviço, uma uberização ampla, geral e irrestrita.

O problema é que, diferentemente do que ocorre com motoristas de aplicativos, que decidem o quanto vão rodar a cada dia, empregados têm força reduzida diante dos patrões, principalmente depois que a reforma de Michel Temer quebrou os sindicatos. Além disso, empresas têm rotinas que exigem jornadas compatíveis com o ritmo da produção e da prestação de serviços.

Shoppings, que empregam 1,1 milhão de pessoas, trabalham, hoje, com dois turnos. Seria inviável que cada loja tivesse funcionários com diferentes escalas. A PEC do PL ainda teria o agravante de, graças à remuneração proporcional à jornada, fazer com que empregados recebessem menos de um salário mínimo.

Ontem, poucas horas depois da declaração de voto de Flávio, a colunista Bela Megale, de O Globo, publicou que lideranças do PL procuraram lideranças empresariais para dizer que, instalado na Presidência, o filho de Jair Bolsonaro aproveitaria a maioria conservadora obtida nas urnas, que chegará ao Congresso em fevereiro de 2027, para aprovar a PEC de Marinho e, assim, sepultar a que deve ser aprovada agora.

Assim, além de cassar ministros do Supremo Tribunal Federal, o Senado mandaria para escanteio a escala cinco por dois. Para citar outro personagem de Bolaños, nem o Chapolin Colorado teria tamanha astúcia.