Fernando Molica

'Companheiro' Davi salvou Lula

O Planalto minimizou os riscos relacionados à PEC da Segurança; ao insitir na votação do projeto, abriu a guarda para o contra-ataque do PL.

'Companheiro' Davi salvou Lula
Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, na sessão que votaria a proposta do governo para a segurança Crédito: Ton Molina/Agência Senado

Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), salvou o governo ao retirar de pauta a PEC da Segurança que, de possível trunfo, havia se transformado em um grande rico para o presidente Lula (PT), que por pouco não toma uma previsível rasteira da oposição.

Talvez animado com as perspectivas — confirmadas na votação, anteontem — favoráveis à aprovação do fim da escala seis por um, o Planalto minimizou os riscos relacionados à outra proposta de emenda constitucional. Ao insitir na votação do projeto, o governo abriu a guarda para o contra-ataque do PL. A jogada da oposição foi simples: buscar incluir na PEC da Segurança emenda do senador Rogério Marinho (PL-RN) que reduz a maioridade penal para até 14 e 16 anos, dependendo do crime. Uma proposta que, apesar de todas as suas inconsistências, tem inegável apelo popular entre brasileiros amedrontados pela violência e que teria grandes chances de ser aprovada.

Maior de idade, assim como todos os criminosos que sequestram o país, Daniel Vorcaro e seus cúmplices roubaram bilhões, mas nenhum deles apontou uma arma para a cabeça dos cidadãos ou furtou celulares, crimes presentes no cotidiano e que tiram o sono de praticamente todos nós.

O barata-voa no governo foi tamanho que houve uma explícita bateção de cabeça. Para tentar minimizar os danos e evitar e reforçar o mote de que o governo "protege bandidos", o líder do PT no Senado, Camilo Santana (PT-CE), apresentou emenda que reduz a maioridade para 16 anos em apenas alguns crimes.

Dono da única voz que conta entre os petistas, Lula entrou em campo, manifestou suas discordância com a emenda de Santana e mandou que sua base se virasse para votar a PEC do jeito que ela fora aprovada pela Câmara dos Deputados.

O impasse reforçou a soberba de Lula, incompreensão do Congresso e falta de noção sobre o poder da bancada governista. A PEC do fim da seis por um não foi aprovada com facilidade pela força da esquerda no Senado, mas pelo temor dos parlamentares em se posicionarem contra uma pauta muito popular, de fácil entendimento. Até mesmo Flávio Bolsonaro, com medo de perder a eleição, se viu obrigado a votar favoravelmente.

A PEC da Segurança não é assim tão simples de ser compreendida. É uma lei que viabiliza mudanças que, na avaliação do Planalto, possibilitarão uma vida mais tranquila aos brasileiros. Mas é algo mais complexo, que incorpora uma visão do próprio governo sobre o tema, uma visão interessante, mas que não esgota o assunto. Não seria difícil para a oposição dizer que as medidas não passam de blá-blá-blá, que o bom mesmo é punir os suspeitos de sempre, quase todos pobres e pretos.

Ao aprovarem o fim da seis por um, parlamentares de oposição salvaram a própria pele; se votassem à outra PEC do jeito que saiu da Câmara, colocariam mais recheio na empada petista. Mais uma vez perdido nos corredores do Congresso, o governo acabou resgatado por Alcolumbre, que agora virou inimigo de vez da oposição e merece até ser chamado de "companheiro" pelos petistas.