Por uma dessas ironias da política, a esmagadora votação do PL para o Senado deu ao governo a chance de vencer o embate em torno do fim da escala seis por um — isso, mesmo que venha a ser derrotado em plenário.
A votação de domingo passado deu sentido de urgência à proposta de emenda constitucional, que agora só tem chance de ser aprovada caso seja votada já, pelos atuais senadores. Com os futuros integrantes da Casa, que assumem em fevereiro, não haveria a menor chance de sucesso.
A hegemonia da direita e da extrema-direira no Senado será tamanha que praticamente reduziu a zero a chance de reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) à presidência da Casa. O PL, que terá 28 dos 81 senadores, não esconde que quer a cadeira hoje ocupada pelo amapaense.
Até por sua aproximação com o presidente Lula (PT) neste segundo semestre, Alcolumbre é, hoje, uma opção descartada. Esta condição deu a ele o descompromisso com a oposição — faça o que fizer, será quase impossível reconquistar o apoio da direita (o "quase" é uma concessão).
Com o futuro cenário catastrófico — que pode piorar com a eventual derrota de Lula —, restou ao governo a saída do tudo ou nada. Como diria Elvis Presley, it's now or never, agora ou nunca (melhor, só daqui a oito anos, quando haverá outra renovação de dois terços da Casa).
A nova realidade imposta pelos eleitores permite ao Planalto empunhar uma bandeira importante para tentar mudar o resultado desfavorável do primeiro turno e, também, constranger o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ontem, Lula postou vídeo em que pergunta como ele, seu adversário, vai votar na PEC.
A situação, de tão ruim, dá ao governo um bom discurso até em caso de bloqueio de votação por parte do PL ou de fracasso da proposta em plenário: poderá então jogar a culpa em Flávio Bolsonaro.
O vencedor do primeiro turno da disputa presidencial demonstra preocupação com o tema, até agora não disse se vai votar sim ou não ao regime de duas folgas por cinco dias de trabalho.
Quando provocado, refugia-se em outra PEC, apresentada por seu partido e que prevê uma escala flexível, resultado de uma suposta livre negociação entre patrões e empregados. Quem tem ou teve carteira assinada sabe da inviabilidade desse tipo de acordo, principalmente depois do enfraquecimento dos sindicatos provocado pela reforma trabalhista comandada por Michel Temer.
A proposta permite redução proporcional de vencimentos, que, assim, poderiam até ficar abaixo do salário mínimo. Escalas diferenciadas de trabalho também complicariam a vida de empresas, que não dariam conta de criar diversas variações de jornadas; é só imaginar o que ocorreria com shoppings, que costumam usar dois turnos fixos.
O apego de Flávio a essa PEC revela sua dificuldade de dizer não ao fim da seis por um, ajuda a diferenciar esquerda e direita com base em fatos concretos e reafirma que, na política, até derrotas podem ser transformadas em vitórias.
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