Fernando Molica

Mistérios na boca da urna

Lula aumentou despesas às vésperas da eleição e não explicou como vai tentar equilibrar o orçamento; Flávio não revelou que despesas e impostos irá cortar.

Mistérios na boca da urna
Eleitores irão às urnas sem saber pontos fundamentais de propostas dos candidatos Crédito: Alejandro Zambrana/Secom/TSE

Ao fim de uma campanha que abordou até exame de toque, o eleitor chegará à urna sem saber pontos fundamentais: não sabemos, por exemplo, o que os principais candidatos à Presidência pretendem fazer em relação a pontos fundamentais, como o equacionamento da dívida pública que tanto contribui para os juros altos.

O presidente Lula aumentou despesas às vésperas da eleição e recorre ao exemplo da econômica mãe, D. Lindu, sempre que questionado sobre o tema; Flávio Bolsonaro não se dignou a dizer que cortes faria no orçamento para viabilizar uma diminuição nos impostos e diminuir a velocidade da roda viva que impede um crédito menos oneroso.

A julgar pelo que ouviu e o que faz, o petista deve ter levado muitas broncas de sua genitora que não admitia gastos acima da arrecadação; já o candidato do PL não revela onde fará seu tesouraço: as incisões serão na saúde, na educação, na correção de aposentadorias e de outros benefícios? Ou vai diminuir os incentivos fiscais a grandes setores da economia, entre eles, o agro? Ricos e integrantes da classe média alta vão poder continuar a abater do imposto de renda despesas com planos de saúde?

O mesmo vale para a discussão do fim da escala de seis dias trabalhados por um de descanso. Lula transformou a medida em tema de campanha, mas ainda não explicou como ficará a situação de pequenas empresas, que têm um ou dois funcionários. Elas serão submetidas às mesmas normas, haverá algum tipo de compensação?

O senador fluminense não disse sequer se votará contra ou a favor do fim da seis por um. Até agora, seu partido tem se limitado a dificultar a votação da medida — apresentou como alternativa uma outra proposta de emenda constitucional que estabelece uma suposta livre negociação de jornada entre patrões e empregados. O enfraquecimento dos sindicatos estabelecido no governo Michel Temer acabou com qualquer paridade de armas entre os dois lados.

A subordinação da campanha à lógica das redes sociais, com a proliferação de mensagens curtas, tantas vezes oportunistas e descontextualizadas, impediu qualquer discussão de propostas mais amplas.

Os grandes temas foram ligados a acusações e suspeitas de corrupção. É necessário escarafunchar a vida pregressa de candidatos e de aliados, mas o assunto monopolizou todas as atenções. Os candidatos sequer falaram no que pretendem fazer para resolver um dos nossos maiores nós institucionais, o sequestro do orçamento por um Congresso Nacional capaz de ordenar despesas e que, ao mesmo tempo, não ter qualquer responsabilidade em relação ao equilíbrio das contas públicas.

Pesquisas apontam para a realização de um segundo turno; caso isso ocorra, o país terá, mais uma vez, a chance de cobrar um mínimo de racionalidade das campanhas, de retirá-las da lógica de adesão religiosa que tanto tem marcado o país.