Uma das grandes qualidades de "Brasil 70: a saga do Tri", série da Netflix e da O2, foi transformar em disputa de ideias e propostas de jogo a oposição entre dois dos grandes responsáveis pelo triunfo em 1970, João Saldanha (interpretado por Rodrigo Santoro) e Mário Jorge Lobo Zagallo (Bruno Mazzeo).
A ditadura, então no seu auge, contribuiu para criar uma dicotomia entre o técnico das eliminatórias — o jornalista e ex-dirigente comunista João — e o que conduziu o time no México, campeão do mundo como jogador em 1958 e 1962. Com o tempo consolidou-se a visão de escalar Saldanha como representante da esquerda e da rebeldia; Zagallo, da direita e da submissão. Ambos foram muito além desses estereótipos, são mostrados de uma maneira ampla, com qualidades e problemas.
A série não omite uma questão pontual e decisiva, a negativa de Saldanha de atender ao pedido do ditador Emílio Garrastazu Médici para convocar Dario, atacante do Atlético Mineiro. Uma sugestão prontamente atendida por Zagallo. Conta também a irritação dos militares ao saber que o militante comunista aproveitava viagens ao exterior para divulgar os crimes que ocorriam nos porões.
Mas a série escapa da armadilha de bem contra o mal. Saldanha foi decisivo ao dar ao time o apelido de "Feras", ao definir os titulares, ao armar um esquema de jogo que colocava no ataque Jairzinho, Tostão e Pelé, ao garantir a classificação para a Copa. Mas também se envolveu em brigas menores, implicâncias como a que passou a cultivar com o 10 absoluto, o já então Rei.
Zagallo focou no campo, fez alterações no time do antecessor — deu a camisa titular para Brito, recuou Piazza para a defesa, escalou Marco Antônio e depois Everaldo na lateral, entregou a 11 para Rivellino. De acordo com a série, voltou atrás em sua concepção ao barrar Roberto, seu então preferido para usar a 9, e devolver a titularidade a Tostão.
Outro golaço da série — só tive tempo de ver os dois primeiros dos cinco episódios — é dar voz aos jogadores. Interpretado pelo assustadoramente semelhante Lucas Agrícola, Pelé ganha na tela o protagonismo que exercia em campo e nos bastidores.
Mas é possível acompanhar o drama de Tostão, às voltas com o deslocamento de retina no olho esquerdo. As discussões nos bastidores, entre os craques, e entre estes e Zagallo, são muito legais, nos levam para dentro da concentração, dos vestiários. A série também nos remete a um tempo em que os jogadores podiam fazer exercícios nas ruas, em que não havia uma barreira quase instransponível entre eles, os jornalistas e os torcedores; no limite, entre eles e o mundo.
Feita com o indispensável auxílio de recursos de manipulação de imagens, a reconstituição de lances decisivos é emocionante, transmite vibração, permite ao espectador ver outros ângulos de jogadas que, quase 60 anos depois, continuam a embalar nossos melhores sonhos de um esporte que tanto se confunde com nossas vidas, histórias, frustrações, glórias e expectativas de afirmação e soberania. Com direção geral de Paulo Morelli e Pedro Morelli, "Brasil 70: a saga do Tri", ao tratar da epopeia mexicana, fala de todos nós.
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