Ainda bem que, para alguns radicais, Donald Trump não estava no poder em 2022 e 2023: ele poderia ter mandado invadir o Brasil para reprimir as organizações terroristas que tentaram explodir um caminhão-tanque no aeroporto de Brasília e planejavam assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. O ataque às sedes dos poderes também poderia ser classificado de terrorista.
Em qualquer um desses casos, bastaria a Casa Branca alegar que os atentados ameaçaram empresas ou cidadãos de seu país para despachar os marines para cá. Motivos não faltariam: a embaixada do Estados Unidos fica a 1.500 metros da Praça dos Três Poderes, pertinho do foco da intentona de 8 de Janeiro; no aeroporto da capital funcionam empresas de origem norte-americana, certamente havia conterrâneos de Trump nos terminais na hora da explosão abortada.
Com base em suas posições, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sequer poderia reclamar caso o Departamento de Estado afirmasse que a intervenção no Brasil fora para desbaratar uma organização que poderia, digamos, ser chamada de Comando Amarelo (os EUA alegaram que invadiram a Venezuela para eliminar um tal de Cartel de Los Soles e, depois, admitiram que tal grupo não existia).
O pré-candidato à Presidência cumpre seu papel de integrante da oposição ao reclamar da política de segurança pública do governo federal, alegar que há frouxidão no combate a organizações criminosas e prometer novas formas de enfrentamento. Mas, ao pedir que Trump classifique o PCC e CV de organizações terroristas, ele estendeu o tapete vermelho para uma invasão norte-americana ao nosso país. E olha que, ao tomar posse como senador, ele prometeu "sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil".
O PCC e o CV são organizações poderosas, cometem muitos crimes graves, matam, roubam, traficam. Como demonstram investigações recentes, além de infernizarem a vida de milhões de cidadãos, infiltraram-se em instituições públicas e privadas, atuam no Legislativo, no Judiciário, no Executivo, na distribuição de combustíveis, no mercado financeiro.
Mas, até prova em contrário, querem ganhar dinheiro, não cultivam objetivos políticos e ideológicos. Para esses criminosos, pouco importa se um governo é de direita ou de esquerda, desde que continuem a lucrar. No limite, podem representar uma ameaça ao Estado de Direito, com ocorreu na Colômbia e periga acontecer no México: o domínio territorial que exercem em partes do país é grave e não deveria ser admitido. Assim como o país tem reprimir as milícias que, nascidas nos intestinos do aparelho do Estado, também representam um risco às instituições.
Controlar esses grupos que crescem graças a parcerias público-privadas é obrigação de governantes e demais políticos de todas as esferas, mas o problema é nosso, não dos Estados Unidos ou de qualquer outro país. Temos que cuidar de nossos problemas, caso contrário, não seremos dignos de constituirmos um país. Vale lembrar que, em uma invasão, haveria a possibilidade de militares norte-americanos chegarem na Faria Lima — segundo a Polícia Federal, por lá transita boa parte do dinheiro dos cartéis brasileiros.
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