Fernando Molica

A dívida pesada da direita

Ao exigir a manutenção de Flávio na cabeça de chapa do PL ao Planalto, Bolsonaro exibe aos aliados o tamanho da dívida por eles acumulada, a casa, a comida, e a roupa lavada.

A dívida pesada da direita
Bolsonaro não aceita a retirada da candidatura do filho Crédito: Lula Marques/Agência Brasil

A relação da direita, em particular do PL, com Jair Bolsonaro se assemelha àquela dívida que caracteriza uma forma de escravidão: trabalhadores enganados descobrem, ao chegarem em uma propriedade rural, que acumulam débitos por transporte, alojamento e habitação. Esse tipo de compromisso é impossível de ser quitado.

Diferentemente desses lavradores, a direita sabia onde estava se metendo ao avalizar o bolsonarismo e recebeu seu pagamento, milhões e milhões de votos que viabilizaram mandatos, poder e, eventualmente, bons negócios.

A derrota em 2022 não chegou a abalar a relação, o PL e partidos do Centrão elegeram muita gente, garantiram verbas de fundos partidário e eleitoral, liberação de emendas não obrigatórias e cargos no governo federal — até integrantes mais pragmáticos do partido de Bolsonaro conseguiram se ajeitar com o Planalto. Minoritário no Congresso, o governo precisou se render ao varejo do toma lá-dá cá para tentar aprovar projetos, e com frequência foi derrotado.

Nem mesmo o julgamento dos golpistas feriu a direita de maneira decisiva com exceção de casos isolados, como o do ex-deputado Alexandre Ramagem. O universo político tradicional escapou quase ileso da apuração da Polícia Federal, das denúncias da Procuradoria-Geral da República e das condenações do Supremo Tribunal Federal.

Indicado pelo pai para concorrer à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também não pareceu ser contaminado pela onda contra golpistas, tanto que vinha crescendo nas pesquisas eleitorais até o surgimento de suas conversas com Daniel Vorcaro.

A repercussão do caso e o dano à candidatura já detectador por duas pesquisas — Atlas/Intel e Vox — mudaram o jogo. Dessa vez, candidatos ao Legislativo e aos governos estaduais podem ser afetados pelas relações entre o primogênito de Jair Bolsonaro com o ex-proprietário do Banco Master.

Quase todos já tiraram casquinha na popularidade do ex-presidente e do senador, vai ficar difícil negar as ligações. Ficou menor a chance de muita gente se eleger no vácuo de um representante do clã, a conta ficou alta demais.

O histórico de Bolsonaro-pai e manifestações dele nos últimos dias indicam que ele não aceitará a retirada da candidatura que abençoou: defensor de sua própria família, prefere a reeleição do presidente Lula (PT) à ascensão de uma liderança à direita que deixe seu clã em segundo plano.

Ao exigir a manutenção de Flávio na cabeça de chapa do PL ao Planalto, ele exibe aos aliados o tamanho da dívida por eles acumulada, a casa, a comida, e a roupa lavada. E, ao mesmo tempo, aponta para o sistema de segurança de sua propriedade, para os muros e para os milhões de eleitores que o seguem.

De frente para um dilema, aliados tentam ganhar tempo, esperam que as pesquisas eleitorais confirmem uma possível inviabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro, o que poderia justificar um rompimento e evitar a pecha de traição. O desafio, porém, será argumentar com base na racionalidade eleitoral com uma parcela da população trata a política com a lógica da fé, do embate do bem e do mal.