Fernando Molica

Bondades que complicam

Há muitas pessoas que se mostram desiludidas com políticas sociais que aplacaram a pobreza, mas se revelaram incapazes de gerar expectativas de um futuro melhor.

Bondades que complicam
Presidente Lula no lançamento de benefícios para taxistas e trabalhadores por aplicativos Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Ao facilitar a compra de carros por taxistas e motoristas de aplicativos e afrouxar regras para o trabalho de motociclistas, o governo federal aposta em saídas específicas que tendem a piorar a vida coletiva e, em ano eleitoral, indica ter jogado a toalha na tentativa de regulamentar atividades baseadas na exploração e que oferecem risco de vida.

Pesquisas atestam a impopularidade do governo na baixa classe média, principalmente entre jovens. Pessoas que se revelam desiludidas com políticas sociais que aplacaram a pobreza, mas se mostram incapazes de gerar expectativas de um futuro melhor. É gente que, como começaram a cantar os Titãs em 1987, não quer só comida.

A migração de intenções de votos de Flávio Bolsonaro (PL) para Renan Santos (Missão) entre eleitores de 16 a 24 anos, detectada pela pesquisa Atlas/Intel, sugere que esses brasileiros querem alternativas que apontem para uma possibilidade de progresso individual. Para eles, políticas como o Bolsa Família são uma armadilha que mata a fome, mas impede o progresso. Versão juvenil e menos descabelada do argentino Javier Milei, Santos incorpora esse tipo de rebeldia conservadora.

O governo tentou criar alguma regulamentação para motoristas de aplicativos e motociclistas, mas perdeu a briga: a possibilidade de cobrança de alguma contribuição previdenciária foi vista como usurpação do dinheiro alheio; o estabelecimento de uma tabela mínima de remuneração naufragou diante do argumento da oposição de que isso encareceria as entregas, diminuiria a demanda e, consequentemente, a remuneração dos que se consideram empreendedores.

Argumento parecido tem sido utilizado contra o fim da escala de seis dias de trabalho por um de folga, uma crítica que encontra respaldo até mesmo entre pessoas que, em tese, serão beneficiadas pela lei. Até porque, no limite, o que tantos querem não é a escala de cinco por dois ou de quatro por três, mas o fim de trabalhos pesados, cansativos e mal remunerados ("A gente quer comida, diversão e arte", "A gente quer saída para qualquer parte", "A gente quer bebida, diversão, balé", "A gente quer a vida como a vida quer").

O engraçado é que, para cultivar profissionais que apostam nas saídas particulares e descreem do Estado, o governo faz o que eles dizem condenar: e tome de dinheiro público para financiar o aumento de carros nas ruas, estimular a poluição e os engarrafamentos e incentivar o estímulo ao trabalho quase suicida de motociclistas.

A Confederação Nacional do Transporte ressaltou que as medidas reforçam a tendência de diminuição do uso do transporte coletivo. Seus dados mostram que a participação do transporte coletivo caiu de 49,8% em 2017 para 31,7% em 2024 — e aumentaram os deslocamentos individuais. Mas isso é também resultado das más condições do transporte coletivo no país; é o que faz muita gente arriscar a pele na garupa de uma moto.

Não se pode condenar os beneficiados pela medida do governo, afinal de contas, há séculos que recursos da população são utilizados para financiar um capitalismo que adora defender as leis do mercado, desde que para os outros. Mas, pelo menos, dá pra lamentar que, mais uma vez, um governo busca o caminho mais fácil, anestesia uma dor e ignora suas causas.