Cerca de dois meses depois da consagração internacional na Suíça, ao ganhar o Prêmio do Júri de Locarno, “A Margem do Rio” calou fundo no peito da Première Brasil, numa passagem que encantou a crítica. Seu vigor plástico, somado à sua forma de expor (até as vísceras) o assombro do preconceito, mexe com a plateia.
Não há quem não se encante com as opções da diretora de fotografia Luciana Baseggio como artesã da luz, pois seu trabalho em “A Margem do Rio” é notável. Os enquadramentos arquitetados por Luciana, no thriller queer de Enock Carvalho e Matheus Farias, desafia convenções testadas (e aprovadas) historicamente na seara do suspense. É um elogio ao desejo, que peita interditos morais no retrato por um Nordeste cercado de elementos místicos em seu mangue, onde a mais temível assombração é o avanço de seitas religiosas neopentecostais conservadoras. A artesania de sua fotógrafa já havia impressionado a Europa em 2025, com “Ato Noturno”, uma das sensações da Berlinale do ano passado, que valeu a ela um troféu Redentor no Festival do Rio. Locarno só fez referendar e espichar sua consagração.
Numa narrativa sinestésica de flerte com o mistério, “A Margem do Rio” segue os passos de Izaquiel (Caique Copque), um auxiliar de serviços gerais do Recife. Num recorte dessa cidade com foco em rotas fluviais e manguezais, o rapaz se aventura perigosamente, noite após noite, em encontros secretos com outros homens. Numa dessas investidas em busca de goza, tromba com o pescador de ar sedutor Jeremias (Ítalo Martins, ator em fase de apogeu em sua arte). O flerte entre eles deixa o jovem zelador magnetizado pelo querer. Durante o dia, contudo, a encantaria do sexo vai embora e dá vez a uma rotina laboral capitalista opressora, no momento em que Izaquiel é escalado para trabalhar na sede de um culto evangélico cujo líder é um pastor boquirroto, que não aceita ver piercings na orelha de seu funcionário, nem tolera ver unhas pintadas nas mãos de seus serviçais. Essa figura, com ares de senhor feudal, que lembra o bispo mau de “O Feitiço de Áquila” (1985), é vivido com brilhantismo por Robério Diógenes, o delegado “imperfeito” de “O Agente Secreto” (2025).
Na montagem taquicárdica feita pelo próprio Matheus Farias, com Will Domingos, à medida que Izaquiel se vê acossado por minions fanáticos, Jeremias o convida a uma jornada rumo às profundezas do coração do manguezal. A forma como essa conexão dos dois é narrada por sua dupla de realizadores (antes conhecida pelo curta “Inabitável”) lembra o cult “Um Estranho no Lago” (2013), de Alain Giraudie. O design (e a edição) de som de Daniel Turini e João Victor Coura é outro êxito desse concorrente ao troféu Redentor de Ficção. O título mais vigoroso do certame até agora ainda é a animação “O Filho da Puta”.
No domingo, o Festival do Rio chega ao fim.
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