28° Festival do Rio

'Pitico', um Bressane em fotossíntese

'Pitico', um Bressane em fotossíntese
Paulo Betti usa seu ferramental cênico para passar da fantasmagoria semiótica a um tom espectral que assusta... e encanta Crédito: Divulgação

Pouquíssimos realizadores latino-americanos mantêm presença internacional tão constante quanto Julio Bressane, que, depois de levar “Pitico – Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) – Historiador da Província” ao Filmfest München, apresenta no Festival do Rio este que é um dos filmes mais delicados de sua produção recente. É um debate sobre a dicotomia entre a finitude e o perpétuo. Em janeiro, o octogenário cineasta já havia oferecido uma espécie de balão de ensaio dessa investigação espectral ao abrir a Mostra de Cinema de Tiradentes (MG) com o curta “O Fantasma da Ópera”. Agora, Paulo Betti encarna (com sagacidade) Hermes Ayres Azevedo, historiador apaixonado por cartas, documentos, palavras e árvores, cuja morte converte a fantasmagoria típica do diretor de “O Anjo Nasceu” (1969) num assumido filme de fantasma. Bressane brinca até com códigos de “Invocação do Mal” (2013), mas submete o terror à sua particular semiologia. A quietude monástica da narrativa encontra enorme força na engenharia sonora de Bressane, Rodrigo Lima e Damião Lopes, responsável também pela edição de som e mixagem, enquanto a fotografia rigorosa de Pablo Baião transforma corpos, interiores e vegetação em signos a serem decifrados. Betti, por sua vez, reduz os gestos quase a uma coreografia de butô e faz do olhar a principal morada de Pitico. É Bressane em estado puro: uma liberdade lírica que recusa qualquer gramática domesticada pelo mercado, numa fotossíntese de seu jardim de signos.