Mais forte concorrente apresentado até agora na disputa oficial de longas de ficção da Première Brasil, “O Filho da Puta” colocou uma animação no primeiro pelotão da corrida pelo Redentor do 28º Festival do Rio. Se “Funk”, de Aly Muritiba, já havia causado forte impressão graças a um arranjo narrativo taquicárdico (e elenco primoroso), o exercício gráfico e poético da Otto Desenhos Animados com a Anaya Produções escolhe o caminho oposto: faz da artesania, da singeleza e de uma iconografia brasileira cuidadosamente trabalhada suas principais armas.
Dirigido a oito mãos por Sávio Leite, Érica Maradona, Otto Guerra e Tania Anaya, a partir do roteiro de Carla Guimarães, “O Filho da Puta” mistura Chaplin, Glauber Rocha e um certo espírito de Graciliano Ramos num sertão mineiro com cara de Nordeste, temperado por Odair José. Egresso da seção Contrechamp do Festival de Annecy, na França, e premiado no Animafest Zagreb, na Croácia, o longa impressiona sobretudo pela direção de arte, que aproxima seus desenhos da xilogravura e da força plástica do cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964).
É nesse universo que Ismael, filho da dona da Casa Rosa, famoso bordel da pequena Veredas, decide procurar duas coisas que nunca conheceu: o pai e o oceano. O cineasta Gabriel Martins dá voz ao rapaz, mas quem ameaça roubar o filme é seu companheiro de viagem, Bacalhau, um cachorro perneta, falante e sábio interpretado por Matheus Nachtergaele. O eterno João Grilo reencontra Otto Guerra, com quem trabalhou em “A Cidade dos Piratas” (2018), e faz do animal um dos personagens mais encantadores desta edição do festival - que termina no domingo.
Animação dispara na Première Brasil
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